Superar as divisões: a capacidade da sociedade civil para combater a polarização nociva

Num momento em que as nossas sociedades se veem a braços com uma polarização crescente e em que a confiança nas instituições democráticas se degrada, a sociedade civil tem de estar à altura do desafio. A polarização em si nem sempre é negativa: o debate democrático alimenta-se da diversidade de pontos de vista. No entanto, quando a polarização leva à hostilidade, à desinformação e à divisão, coloca em risco os próprios alicerces das nossas democracias.

Na edição deste ano da Semana da Sociedade Civil, assistimos a exemplos notáveis de iniciativas que combatem a polarização nociva. O Prémio CESE para a Sociedade Civil destacou organizações ativas na literacia mediática, no combate à desinformação e na promoção do diálogo intergeracional. Estes são os tipos de projetos que devem ser apoiados para construir sociedades resilientes e coesas.

Em toda a Europa, verificamos uma fragmentação crescente da sociedade. Os desafios são inúmeros: desigualdades económicas, exclusão social, desinformação digital e extremismo político. O recente aumento dos movimentos populistas em toda a Europa, a diminuição do pluralismo dos meios de comunicação social e a erosão da confiança nas instituições ilustram como o descontentamento culmina na polarização. Estas tendências enfraquecem as estruturas democráticas e corroem a coesão social. Em tempos assim, a sociedade civil é mais do que apenas participante no processo democrático – é guardiã da sua resiliência.

Há muito que as organizações da sociedade civil estão na linha da frente da defesa dos valores democráticos. Exercem a função de mediadores, trazendo várias vozes para a mesa, combatendo a desinformação e promovendo debates públicos informados. Proporcionam uma plataforma para quem sente que não é escutado, lutando por políticas inclusivas que superam as divisões em vez de as acentuar. Através da participação cívica, de debates fundamentados em factos e de iniciativas que promovem a tolerância, a sociedade civil combate ativamente as forças divisórias.

O CESE está firmemente convicto de que o reforço da participação e do diálogo é a única via a seguir. Todos os dias o constatamos no nosso trabalho: os nossos membros, que representam empregadores, sindicatos e organizações não governamentais, participam em debates acesos, mas sempre com o objetivo de chegar a um entendimento. A nossa força reside no consenso, e é este modelo que deve ser propagado por toda a Europa.

A sociedade civil deve ser capacitada para desempenhar plenamente o seu papel contra a polarização. Para tal, há que garantir o seu acesso a financiamento, proteger a sua capacidade de operar livremente e fomentar um ambiente em que os seus contributos para a vida democrática são reconhecidos e valorizados. Importa reforçar os mecanismos de participação, seja através de consultas aos cidadãos, de iniciativas cidadãs ou de instrumentos de democracia deliberativa, para assegurar que as pessoas se sentem incluídas na tomada de decisões.

A Europa só terá futuro se os seus cidadãos se sentirem representados, envolvidos e escutados. A sociedade civil não é um acessório da democracia – é a sua espinha dorsal. Enquanto atravessamos uma era de divisão, temos de assegurar que a sociedade civil dispõe dos instrumentos adequados, do reconhecimento devido e do espaço necessário para continuar a salvaguardar os nossos valores democráticos. Ao fomentar o diálogo, promover a inclusão social e combater o extremismo, a sociedade civil pode ser a força que leva a polarização a deixar de ser uma fonte de conflito e a transformar-se numa locomotiva do debate construtivo e do progresso social.

Vamos unir esforços para garantir que a divisão não define o nosso futuro. Vamos construir uma Europa em que a diversidade de opiniões reforça a nossa unidade, em que a participação restabelece a confiança e em que a sociedade civil abre caminho para superar as divisões.

Oliver Röpke

Presidente do CESE