Skip to main content
Newsletter Info

CESE info

European Economic and Social Committee A bridge between Europe and organised civil society

APRIL 2025 | PT

GENERATE NEWSLETTER PDF

Línguas disponíveis:

  • BG
  • CS
  • DA
  • DE
  • EL
  • EN
  • ES
  • ET
  • FI
  • FR
  • GA
  • HR
  • HU
  • IT
  • LT
  • LV
  • MT
  • NL
  • PL
  • PT
  • RO
  • SK
  • SL
  • SV
Editorial

Editorial

A sociedade civil aborda a polarização social

Estamos em abril, e continuamos a refletir sobre os pontos de vista estimulantes suscitados pelos nossos eventos emblemáticos de março, que, uma vez mais, demonstraram o poder e a determinação da sociedade civil.

Read more in all languages

A sociedade civil aborda a polarização social

Estamos em abril, e continuamos a refletir sobre os pontos de vista estimulantes suscitados pelos nossos eventos emblemáticos de março, que, uma vez mais, demonstraram o poder e a determinação da sociedade civil.

O mês de março foi, de facto, intenso e inspirador no Comité Económico e Social Europeu. Organizámos o nosso evento anual dedicado à juventude, «A tua Europa, a tua voz», onde damos a palavra ao futuro da Europa: os jovens, muitos deles ainda no ensino secundário, de todo o continente, incluindo o Reino Unido e os países candidatos à adesão à UE.

Realizámos igualmente a nossa segunda Semana da Sociedade Civil, que reuniu mais de 800 representantes da sociedade civil de toda a Europa que participaram em debates animados, partilharam boas práticas e criaram em conjunto soluções destinadas a reforçar a participação democrática. Este ano, o tema escolhido foi o «Reforço da coesão e da participação em sociedades polarizadas».

Mas, nos tempos conturbados de hoje, o que não faltam são problemas prementes. Assim, porquê o foco na polarização?

A polarização – a concentração de pontos de vista opostos – pode ser um elemento normal do discurso democrático muitas vezes com origem na ideologia. Com efeito, um debate dinâmico e a expressão de opiniões diversas, e até mesmo contraditórias, são essenciais para qualquer sociedade aberta e pluralista como a nossa. Tal como o CESE já sublinhou várias vezes, «um debate aberto, sem qualquer restrição, constitui a base de uma sociedade participativa, sem a qual a democracia não pode funcionar corretamente».

No entanto, o tipo de polarização que observamos hoje é diferente. Assistimos ao aumento de uma polarização negativa e de um populismo que rejeitam o diálogo, minam a confiança e comprometem os valores democráticos. Na política e na vida pública, o espaço para compromissos está a diminuir. Quando a polarização se torna hostil, quando alimenta o ódio ou o ressentimento, perturba a coesão social, fomenta a divisão e, no pior dos casos, conduz à violência.

Ao dedicar o nosso evento à polarização, pretendíamos chamar a atenção para o aumento preocupante dos seus elementos tóxicos, que se infiltram lentamente em todos os poros das sociedades europeias.

Esta tendência preocupante é agravada por várias ameaças: a ingerência estrangeira nos processos democráticos, a propagação da desinformação e a manipulação das redes sociais para silenciar as vozes contrárias e promover opiniões extremas. Assistimos também a pressões crescentes sobre a liberdade dos meios de comunicação social, quer através da monopolização e da interferência dos governos, quer de ataques a jornalistas, numa altura em que os meios de comunicação social livres e pluralistas são mais essenciais do que nunca.

No CESE, estamos profundamente preocupados com o aumento dos crimes de ódio na Europa, incluindo os de índole religiosa, sexual e de género. O ódio compromete a democracia, enfraquece as nossas instituições e gera desconfiança entre os cidadãos.

É precisamente nesta ótica que o papel da sociedade civil é fundamental. As organizações da sociedade civil têm a energia e a coragem necessárias para defender os espaços democráticos e os direitos fundamentais e reforçar o tecido das nossas comunidades. Tal inclui lutar contra os efeitos tóxicos da polarização negativa.

A Semana da Sociedade Civil foi a nossa forma de apoiar esses esforços, proporcionando um espaço para um diálogo com significado, ideias novas e a resolução colaborativa de problemas, a fim de promover a participação e a coesão social. Organizámos painéis do Grupo de Ligação sobre diferentes temas e dedicámos um dia à Iniciativa de Cidadania Europeia (ICE), o instrumento principal da UE para a democracia direta.

Durante a semana, o CESE atribuiu igualmente o seu 15.º Prémio para a Sociedade Civil a três iniciativas notáveis que lutam contra a polarização em toda a Europa. Selecionados de entre mais de 50 candidaturas de 15 Estados-Membros, estes projetos mostram tanto a dimensão do desafio como o profundo empenho dos intervenientes da sociedade civil em enfrentá-lo.

Espero que a Semana da Sociedade Civil deste ano e os nossos galardoados inspirem um otimismo renovado e a confiança no papel que a sociedade civil pode desempenhar na defesa e promoção dos valores democráticos europeus.

E enquanto continuamos a analisar as ideias, as propostas e as conclusões dos nossos eventos de março, nesta edição do mês de abril decidimos dar a palavra a algumas das vozes da Semana da Sociedade Civil e da iniciativa «A tua Europa, a tua voz». Espero que aprecie a leitura.

Aurel Laurențiu Plosceanu

Vice-presidente responsável pela Comunicação

Agenda

8 de maio de 2025

Evento sobre a capacitação dos migrantes vulneráveis

10 de maio de 2025

Dia da Europa 2025

22 de maio de 2025

Conferência «Os cidadãos podem derrotar a desinformação», em Lisboa, Portugal

11 de junho de 2025

Conferência «Produção de energia a preços acessíveis na Europa»

18 e 19 de junho de 2025

Reunião plenária do CESE

Uma pergunta a...

A fragmentação do mercado único está a afetar diretamente o custo de vida na UE, deixando muitos europeus à beira da pobreza. Perguntámos a Emilie Prouzet, relatora do parecer sobre este tema, quais são as recomendações do CESE para combater este problema e criar um mercado único justo e competitivo. 

Read more in all languages

A fragmentação do mercado único está a afetar diretamente o custo de vida na UE, deixando muitos europeus à beira da pobreza. Perguntámos a Emilie Prouzet, relatora do parecer sobre este tema, quais são as recomendações do CESE para combater este problema e criar um mercado único justo e competitivo. 

Um mercado único disfuncional custa demasiado

por Emilie Prouzet

As disfuncionalidades do mercado único estão a ter impacto direto no custo de vida, e o CESE lamenta que a situação continue a agravar-se. O custo de vida é, mais do que nunca, a principal preocupação dos nossos concidadãos, especialmente dos jovens. Os 94,6 milhões de europeus que vivem em risco de pobreza ou exclusão social são os mais afetados.

Read more in all languages

por Emilie Prouzet

As disfuncionalidades do mercado único estão a ter impacto direto no custo de vida, e o CESE lamenta que a situação continue a agravar-se. O custo de vida é, mais do que nunca, a principal preocupação dos nossos concidadãos, especialmente dos jovens. Os 94,6 milhões de europeus que vivem em risco de pobreza ou exclusão social são os mais afetados.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que os obstáculos não pautais na UE são equivalentes a direitos aduaneiros de cerca de 44% para as mercadorias, ou seja, três vezes mais do que os obstáculos entre os estados dos EUA – uma comparação agora muito usada. Para o mercado de serviços, o valor é de 110%!

Áreas como a alimentação, a habitação, a energia, os cuidados de saúde e a educação são afetadas e estão a ser alvo de iniciativas europeias. Todos temos de fazer mais e melhor: os Estados-Membros, os operadores privados e a Comissão Europeia enquanto guardiã dos Tratados. Passo a citar três das principais recomendações formuladas no nosso relatório.

Em primeiro lugar, urge abordar as restrições territoriais à oferta e a fragmentação nacional por parte dos operadores privados, que restringem a concorrência e levam a preços mais elevados para os consumidores. Segundo um estudo do Centro Comum de Investigação (JRC), datado de 2020, o custo adicional para os consumidores eleva-se a catorze mil milhões de dólares por ano. Tendo em conta a inflação, faz sentido que o principal objetivo seja agora melhorar o mercado único. A Comissão, principalmente através do grupo de trabalho para o cumprimento das regras do mercado único (SMET, na sigla em inglês), está a trabalhar nesse sentido. Embora o problema seja complexo, foram apresentadas propostas. O que temos agora a fazer é avaliar o seu impacto e realizar rapidamente progressos a este nível.

Propomos igualmente acelerar os procedimentos contra legislações nacionais que violam o direito da UE. Seria também oportuno que analisássemos a possibilidade de aplicar injunções provisórias contra violações claras das regras da UE. Não devemos permitir a criação de obstáculos. O protecionismo de alguns Estados-Membros tem consequências diretas. E o que dizer do facto de medicamentos poderem expirar antes de poderem ser redirecionados para onde são necessários?

Por último, e tendo em vista promover um mercado único justo e competitivo, temos o dever de adotar uma abordagem equilibrada entre prevenir a erosão das normas elevadas em matéria de sustentabilidade, bem-estar e proteção dos trabalhadores, por um lado, e reduzir os encargos administrativos desnecessários e facilitar o comércio transfronteiriço, por outro.

DIRETO AO ASSUNTO

Elena Calistru, membro do CESE e relatora do Parecer – Deixar as crises para trás – Medidas para uma economia europeia resiliente, coesa e inclusiva, escreve sobre os imperativos económicos da construção de uma economia que protege os cidadãos e as empresas da turbulência económica e das graves crises do custo de vida.

Read more in all languages

Elena Calistru, membro do CESE e relatora do Parecer – Deixar as crises para trás – Medidas para uma economia europeia resiliente, coesa e inclusiva, escreve sobre os imperativos económicos da construção de uma economia que protege os cidadãos e as empresas da turbulência económica e das graves crises do custo de vida.

Resiliência económica: da gestão da crise à proteção dos cidadãos

Por Elena Calistru

A arquitetura económica da Europa tem sido posta à prova por crises recentes, com o maior ónus a recair sobre o cidadão comum. O nosso Parecer – Deixar as crises para trás propõe um roteiro para uma economia que protege os cidadãos e as empresas em vez de os expor à turbulência económica.

Read more in all languages

Por Elena Calistru

A arquitetura económica da Europa tem sido posta à prova por crises recentes, com o maior ónus a recair sobre o cidadão comum. O nosso Parecer – Deixar as crises para trás propõe um roteiro para uma economia que protege os cidadãos e as empresas em vez de os expor à turbulência económica.

Há que destacar três imperativos económicos:

Em primeiro lugar, a previsão económica deve evoluir de uma análise retrospetiva para uma intervenção preditiva. Quando a inflação surge, é sentida primeiro no orçamento das famílias antes de ser percetível nos índices económicos. Precisamos de sistemas sofisticados de deteção precoce que identifiquem estrangulamentos na oferta e anomalias na transmissão de preços antes de estes se converterem em faturas de aquecimento e de mercearia incomportáveis. Os agregados familiares mais vulneráveis a choques económicos são precisamente aqueles com menor capacidade para os absorver – uma realidade que exige um mapeamento pormenorizado das vulnerabilidades para assegurar uma proteção específica.

Em segundo lugar, a capacidade orçamental deve passar da resposta de emergência para uma estabilização integrada. O Instrumento de Recuperação da União Europeia (NextGenerationEU) foi impressionante, mas improvisado. A criação de mecanismos permanentes de estabilização orçamental com supervisão da sociedade civil assegurará que as respostas a situações de crise protegem quem está em maior risco. Quando a governação económica descura os efeitos distributivos, a pressão social daí resultante compromete a resiliência que procuramos construir. As condicionalidades sociais do financiamento da UE não devem ser encaradas como obstáculos burocráticos, já que podem assegurar que o crescimento económico se traduz num melhor nível de vida para todos.

Em terceiro lugar, a integração do mercado deve acelerar nos setores mais importantes para os consumidores. Os custos da energia que excedem significativamente os custos nos países concorrentes não são meros indicadores macroeconómicos: são faturas mensais que consomem uma parte significativa do orçamento das famílias em toda a Europa. Os investimentos estratégicos em infraestruturas transfronteiriças e a integração do mercado da energia não são apenas objetivos económicos abstratos, mas um alívio concreto para as famílias e as empresas subjugadas às pressões do custo de vida.

Conceber uma política económica sem o contributo da sociedade civil equivale a navegar sem bússola – tecnicamente é possível mas na prática afigura-se insensato. As políticas concebidas com a plena participação daqueles que sentirão as suas consequências produzem invariavelmente resultados superiores. Não interessa realizar consultas pró-forma: o que se pretende é aproveitar a inteligência coletiva da sociedade civil organizada em todo o ciclo político.

A economia social de mercado da Europa – para ser competitiva – precisa de ser modernizada, não posta de lado. Só quem tem pouca imaginação económica é que promove a ideia de que é necessário escolher entre a competitividade e a proteção dos cidadãos. Os desafios que se avizinham exigem uma criatividade institucional que coloque a resiliência económica e o bem-estar das pessoas no centro da governação económica da Europa.

O CONVIDADO SURPRESA

No rescaldo da traição americana, a Europa só tem duas opções: defender a Ucrânia hoje, como se defenderia a si própria, ou enfrentar o exército russo no seu próprio território amanhã. O combate não será fácil, mas nenhuma guerra está perdida logo à partida. Resta saber quantos europeus estarão ao nosso lado, escreve a nossa convidada surpresa, a jornalista ucraniana Tetyana Ogarkova.

Read more in all languages

No rescaldo da traição americana, a Europa só tem duas opções: defender a Ucrânia hoje, como se defenderia a si própria, ou enfrentar o exército russo no seu próprio território amanhã. O combate não será fácil, mas nenhuma guerra está perdida logo à partida. Resta saber quantos europeus estarão ao nosso lado, escreve a nossa convidada surpresa, a jornalista ucraniana Tetyana Ogarkova.

Tetyana Ogarkova, jornalista e ensaísta ucraniana, especialista em literatura, vive em Kiev. É coordenadora do departamento internacional do Centro de Comunicação de Crise da Ucrânia e coapresentadora do podcast «Explaining Ukraine». É também professora na Universidade Mohyla de Kiev e doutorada em Literatura pela Universidade Paris XII Vale do Marne. 

A EUROPA DA DEFESA: UMA CORRIDA CONTRA O TEMPO

Por Tetyana Ogarkova

Foi com o coração pesado que deixei Kiev no início de março deste ano. Para participar numa conferência de dois dias sobre a Ucrânia, em França, não pude assistir a uma importante cerimónia em Kiev. A nossa amiga e poetisa Svitlana Povalyaeva estaria na Praça Maidan, no centro da capital, a organizar a última homenagem ao seu filho mais velho, Vassyl, que aos 28 anos caiu em batalha. Roman, irmão mais novo de Vassyl, fora morto no verão de 2022 na batalha para libertar a região de Kharkiv. Tinha 24 anos. 

Read more in all languages

Por Tetyana Ogarkova

Foi com o coração pesado que deixei Kiev no início de março deste ano. Para participar numa conferência de dois dias sobre a Ucrânia, em França, não pude assistir a uma importante cerimónia em Kiev. A nossa amiga e poetisa Svitlana Povalyaeva estaria na Praça Maidan, no centro da capital, a organizar a última homenagem ao seu filho mais velho, Vassyl, que aos 28 anos caiu em batalha. Roman, irmão mais novo de Vassyl, fora morto no verão de 2022 na batalha para libertar a região de Kharkiv. Tinha 24 anos.

Entrei no comboio com um nó no estômago. Deixara em casa as minhas três filhas. Não era a primeira vez que me ausentava do país por um curto período durante a guerra. Mas desta vez, o medo apoderou-se de mim.

Sabia que, em caso de ataque iminente com mísseis balísticos russos, o sistema de alerta do meu telefone não funcionaria. Durante alguns dias, estaria a 2000 quilómetros de casa, sem acesso a informações sobre a segurança das minhas filhas. Foi insuportável.

Se o sistema de alerta falhasse, seria porque os Estados Unidos tinham privado a Ucrânia de informações, nomeadamente para a deteção precoce de mísseis balísticos provenientes do território russo. Tinham suspendido também a ajuda militar, inclusive bloqueando a entrega de equipamento já enviado para a Polónia.

Alguns dias mais tarde, regressei à Ucrânia. Decorriam então as negociações entre as delegações ucraniana, americana e saudita. A Ucrânia estava disposta a aceitar um cessar-fogo total e imediato – desde que a Rússia fizesse o mesmo. Donald Trump estava satisfeito. As informações de fontes americanas regressaram, juntamente com a ajuda militar aprovada durante a administração do presidente Biden.

Mas a confiança tinha desaparecido. Depois de uma traição, é difícil fingir que nada aconteceu.

A Europa também se sente traída? A era do escudo de segurança da NATO sob a liderança americana acabou. Os apoiantes do movimento MAGA estão a virar costas. Tencionam reduzir ao mínimo a presença militar e humanitária na Europa e estão a permitir que a Rússia, o agressor, saia do seu isolamento diplomático e económico.

Trump quer um cessar-fogo na Ucrânia o mais depressa possível, seja em que condições for, porque não dá valor ao martírio do povo ucraniano. Quer apenas reduzir os custos para o orçamento dos Estados Unidos. Os americanos deixaram de participar em reuniões como as realizadas na base de Ramstein, e não está prevista mais assistência militar americana este ano.

A paz à custa de uma derrota ucraniana não incomoda o Governo americano. Os enviados Steve Witkoff e Keith Kellogg propõem planos para dividir a Ucrânia em duas ou três partes – à semelhança da divisão da Alemanha nazi no pós-guerra. Como se a Ucrânia fosse o agressor derrotado.

Mas a Europa também está sob ameaça. Se Trump tenciona reduzir o número de tropas americanas na Europa e exige contribuições de 5% para o orçamento de defesa em cada país membro da NATO, é porque considera que a defesa da Europa é um problema europeu.

A Rússia está atenta. Para a Rússia, a NATO sem a liderança americana não é uma força de defesa, nem sequer um elemento dissuasor. Quanto tempo demoraria a construir uma «Europa da defesa» capaz de garantir autonomamente a sua própria segurança? Se essa pergunta for demasiado abstrata, tente responder a esta: que europeus irão defender os países bálticos se a Rússia lançar um ataque na sequência dos seus exercícios militares na Bielorrússia em setembro de 2025?

No rescaldo da traição americana, a Europa só tem duas opções: defender a Ucrânia hoje, como se defenderia a si própria, ou enfrentar o exército russo no seu próprio território amanhã. O combate não será fácil, mas nenhuma guerra está perdida logo à partida.

No final de março, um inquérito à opinião pública ucraniana despertou-me a atenção. Mais de 80% dos ucranianos estão preparados para continuar a luta contra a Rússia, mesmo sem o apoio americano.

Resta saber quantos europeus estarão ao nosso lado.

Notícias do CESE

CESE e Comissão unem forças para defender a sociedade civil

Num debate com Michael McGrath, comissário da Democracia, Justiça, Estado de Direito e Proteção dos Consumidores, o CESE alertou que há esforços contínuos para silenciar, desacreditar e enfraquecer aqueles que defendem a democracia, a justiça social e os direitos fundamentais, e manifestou a sua disponibilidade para unir forças com a Comissão a fim de proteger a sociedade civil europeia e combater a polarização.

Read more in all languages

Num debate com Michael McGrath, comissário da Democracia, Justiça, Estado de Direito e Proteção dos Consumidores, o CESE alertou que há esforços contínuos para silenciar, desacreditar e enfraquecer aqueles que defendem a democracia, a justiça social e os direitos fundamentais, e manifestou a sua disponibilidade para unir forças com a Comissão a fim de proteger a sociedade civil europeia e combater a polarização.

O Comité Económico e Social Europeu (CESE) está preparado para desempenhar um papel ativo na futura estratégia para a sociedade civil, que está a ser elaborada pela Comissão Europeia para reforçar a democracia e o espaço cívico e unir, em toda a UE, as comunidades divididas. Perante os crescentes ataques a grupos da sociedade civil e a meios de comunicação social independentes, o CESE está empenhado em reagir e ajudar a proteger os alicerces de uma sociedade livre e aberta.

«O CESE está firmemente empenhado em defender, proteger e capacitar a sociedade civil. Enquanto casa da sociedade civil europeia, não seremos observadores passivos. Lutaremos ativamente contra as tentativas de enfraquecer o espaço cívico. Defenderemos um maior apoio, uma melhor proteção e um maior reconhecimento do papel da sociedade civil no reforço das nossas democracias», salientou o presidente do CESE, Oliver Röpke, na reunião plenária do Comité, em 27 de março, na qual que foi realizado um debate de alto nível sobre a despolarização das sociedades, com a participação do comissário Michael McGrath.

Oliver Röpke afirmou que as organizações não governamentais (ONG) e os movimentos de base se deparam cada vez mais com retrocessos democráticos, legislação restritiva, campanhas de difamação e ações judiciais estratégicas destinadas a silenciar a dissidência e que fazem parte de um esforço mais vasto para desacreditar e enfraquecer aqueles que defendem a democracia, a justiça social e os direitos fundamentais.

Referindo-se às recentes acusações contra ONG ambientais feitas por alguns deputados ao Parlamento Europeu, Oliver Röpke considerou particularmente alarmante que os ataques não provenham apenas do exterior das nossas instituições, mas também, nalguns casos, do seu interior.

O comissário Michael McGrath afirmou que o CESE se encontra numa posição privilegiada para dar um contributo muito valioso para os esforços da Comissão no sentido de reforçar a democracia e superar as clivagens na sociedade. Na sua opinião, a melhor forma de combater a polarização é capacitar os europeus e assegurar que se sintam representados: «Se alcançarmos este objetivo, conseguiremos aproximar as nossas comunidades, as nossas sociedades e a nossa União. Em qualquer caso, sabemos que a participação das organizações da sociedade civil continuará a ser fundamental.»

A futura estratégia da UE para a sociedade civil, anunciada no programa de trabalho da Comissão para 2025, apoiará, protegerá e capacitará as organizações da sociedade civil e os defensores dos direitos humanos.

O debate em plenária também apresentou as principais conclusões da Semana da Sociedade Civil 2025 do CESE, dedicada ao tema «Reforço da coesão e da participação nas sociedades polarizadas». Entre os oradores figuraram Brikena Xhomaqi, copresidente do Grupo de Ligação, que apresentou as principais exigências formuladas durante a semana, Richard Vaško, da Associação de Debate Eslovaca, vencedora do Prémio do CESE para a Sociedade Civil, e Kristýna Bulvasová, ativista pela juventude, que apresentou as principais recomendações do evento anual do CESE para os jovens, «A tua Europa, a tua voz». (ll)

CESE solicita um programa de trabalho da UE mais ambicioso e inclusivo

O Comité Económico e Social Europeu (CESE) apelou para que o programa de trabalho da Comissão Europeia para 2025 – que define as prioridades legislativas e políticas da União Europeia – se centre na resiliência económica, na justiça social e na sustentabilidade. Num debate em plenária com Valdis Dombrovskis, comissário da Economia e Produtividade, o CESE – que desempenha um papel crucial na definição do programa de trabalho – reafirmou o seu empenho em contribuir para a elaboração de uma agenda que dê resposta aos desafios urgentes, construindo simultaneamente uma União Europeia mais inclusiva e voltada para o futuro.

Read more in all languages

O Comité Económico e Social Europeu (CESE) apelou para que o programa de trabalho da Comissão Europeia para 2025 – que define as prioridades legislativas e políticas da União Europeia – se centre na resiliência económica, na justiça social e na sustentabilidade. Num debate em plenária com Valdis Dombrovskis, comissário da Economia e Produtividade, o CESE – que desempenha um papel crucial na definição do programa de trabalho – reafirmou o seu empenho em contribuir para a elaboração de uma agenda que dê resposta aos desafios urgentes, construindo simultaneamente uma União Europeia mais inclusiva e voltada para o futuro.

Em dezembro de 2024, o Comité Económico e Social Europeu (CESE) apresentou o seu contributo para o programa de trabalho intitulado «Avançar em conjunto: uma União mais audaciosa, simples e rápida». Essa visão procura dar resposta aos desafios económicos e geopolíticos da União Europeia (UE). Todos os anos, através de consultas amplas e recomendações, o CESE enriquece o programa de trabalho a fim de assegurar que este serve da melhor forma os interesses dos cidadãos e das empresas da UE.

O presidente do CESE, Oliver Röpke, congratulou-se com a colaboração intensa com a Comissão Europeia. Embora reconhecendo os esforços da Comissão, apelou para uma abordagem mais ambiciosa e inclusiva. «Continuamos empenhados em definir políticas que promovam a estabilidade económica, a equidade social e os valores democráticos», afirmou.

Valdis Dombrovskis reiterou que o programa de trabalho da Comissão para os próximos cinco anos visa reforçar a competitividade económica e a segurança. «A adoção de medidas para reduzir a burocracia é um elemento importante para construir uma Europa mais competitiva. O nosso programa de simplificação consiste em garantir que as nossas regras contribuem para realizar – e não impedir – os nossos objetivos económicos, sociais, ambientais e de segurança», afirmou.

Prioridades essenciais para 2025

Crescimento económico e competitividade

O programa de trabalho centra-se nas reformas estruturais, no novo Quadro Financeiro Plurianual (QFP) e no reforço dos mercados de capitais. O CESE preconiza uma abordagem mais ampla da resiliência económica, que combata o baixo crescimento, a crise do custo de vida e o aumento da incerteza geopolítica.

Regulamentação mais inteligente, e não apenas menos regulamentação

O CESE apoia o compromisso da Comissão de reduzir os encargos administrativos, mas adverte que a simplificação regulamentar não pode ser feita em detrimento da proteção social ou das normas ambientais.

Impulsionar a inovação e o investimento

Colocando uma forte ênfase nas redes digitais, na inteligência artificial e nas tecnologias quânticas, o programa de trabalho dá prioridade à liderança tecnológica da UE. O CESE exorta a Comissão a criar condições que desincentivem a saída de capitais e promovam o investimento a longo prazo na Europa.

Uma Europa mais justa e mais ecológica

Ao dar resposta a desafios como a escassez de competências, a segurança alimentar e o financiamento sustentável, o programa de trabalho visa reforçar a sustentabilidade social e ambiental. O CESE salienta a importância de políticas que promovam a coesão social e uma transição digital justa.

Preparar o alargamento e o futuro

À medida que a UE avança para um eventual alargamento no horizonte pós-2028, o programa de trabalho define planos para a estabilidade financeira e política. O CESE realça que as perspetivas da sociedade civil devem ser integradas no programa para garantir que as políticas satisfazem as necessidades de todos os europeus. (tk)

Nova visão da UE para a agricultura traz boas notícias para a proteção dos agricultores

O Comité Económico e Social Europeu (CESE) congratulou-se com a nova Visão para a Agricultura e o Setor Alimentar da Comissão Europeia, que giza um roteiro de reformas destinado a reforçar a posição dos agricultores e a criar sistemas alimentares sustentáveis. Não obstante, não se coibiu de defender uma política agrícola comum (PAC) mais ambiciosa.

Read more in all languages

O Comité Económico e Social Europeu (CESE) congratulou-se com a nova Visão para a Agricultura e o Setor Alimentar da Comissão Europeia, que giza um roteiro de reformas destinado a reforçar a posição dos agricultores e a criar sistemas alimentares sustentáveis. Não obstante, não se coibiu de defender uma política agrícola comum (PAC) mais ambiciosa.

A visão, debatida na reunião plenária do CESE de 27 de março, prevê medidas para reforçar o poder de negociação dos agricultores, aumentar a transparência da cadeia de abastecimento e melhorar o diálogo relativo à política alimentar. O comissário da Agricultura, Christophe Hansen, descreveu-a como uma «resposta específica aos apelos em prol de um setor agroalimentar competitivo, justo e resiliente» e destacou a importância de colaborar estreitamente com todas as partes interessadas, incluindo a sociedade civil.

O presidente do CESE, Oliver Röpke, observou que a visão reflete muitas das prioridades do CESE. «Reconhece o papel fundamental de todos os intervenientes no setor agroalimentar na prossecução da sustentabilidade e da competitividade», afirmou, acrescentando que, em alguns domínios, as recomendações do CESE haviam sido mais ambiciosas do que as propostas da Comissão.

Os membros do CESE saudaram as iniciativas destinadas a reforçar o papel dos produtores nas negociações e na celebração de contratos. «Os contratos escritos com cláusulas de revisão aumentarão a transparência e o poder de negociação dos agricultores», afirmou Stoyan Tchoukanov, relator do Parecer do CESE – Alteração do Regulamento Organização Comum dos Mercados (OCM) sobre o reforço da posição dos produtores na negociação e celebração de contratos.

A Comissão tenciona igualmente reforçar a cooperação em todo o sistema alimentar, promovendo uma produção sustentável e regimes alimentares mais saudáveis. Emilie Prouzet, relatora do Parecer do CESE – Novas regras em matéria de aplicação transfronteiras das normas contra práticas comerciais desleais, considera que se trata de um primeiro passo no sentido de apoiar os agricultores e de evitar, simultaneamente, a insegurança jurídica.

A visão inclui um compromisso de instaurar um novo sistema de gestão de riscos e crises à escala da UE, que vem dar resposta aos apelos do CESE em prol de instrumentos mais sólidos para fazer face aos choques ambientais, de mercado e relacionados com o clima. Prevê-se igualmente a adoção de uma estratégia de renovação geracional que apoie os jovens agricultores, facilitando-lhes o acesso a terras, dotando-os de competências de investimento e disponibilizando infraestruturas rurais.

Apesar de amplamente apoiada, a visão continua a suscitar preocupações. Os participantes no debate chamaram a atenção para o desafio que representa discutir a reforma da PAC pós-2027 sem clareza sobre o próximo orçamento da UE. O CESE defendeu igualmente uma aplicação mais rigorosa das condicionalidades sociais e alertou para o facto de a visão não abordar plenamente questões como a concentração do mercado e a especulação financeira que afeta os preços dos alimentos.

O CESE reafirmou o seu papel de parceiro fundamental para materializar a visão da Comissão numa política e comprometeu-se a prosseguir a colaboração com vista a garantir que os interesses dos agricultores, produtores, trabalhadores e consumidores são defendidos na configuração do futuro da agricultura da UE. (ks)

Pode o Pacto Europeu dos Oceanos viabilizar uma economia azul sustentável?

O Comité Económico e Social Europeu (CESE) apoia o Pacto Europeu dos Oceanos e insta a Comissão Europeia a assegurar que este constituirá um quadro de ação sólido e não apenas uma declaração de intenções. 

Read more in all languages

O Comité Económico e Social Europeu (CESE) apoia o Pacto Europeu dos Oceanos e insta a Comissão Europeia a assegurar que este constituirá um quadro de ação sólido e não apenas uma declaração de intenções.

O Pacto Europeu dos Oceanos deve ser consentâneo com as políticas da UE existentes, como o Pacto Ecológico, a estratégia para a economia azul e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, conciliando o crescimento económico, a defesa ambiental e a justiça social.

As alterações climáticas, a poluição e a sobrepesca colocam em risco os oceanos e as comunidades costeiras. O pacto visa melhorar a governação, impulsionar a inovação e promover uma economia azul sustentável. Como se depreende de uma consulta pública realizada recentemente e dos contributos da sociedade civil, o apoio a medidas audaciosas e inclusivas tem vindo a aumentar.

Javier Garat Pérez, relator do parecer sobre a matéria, salientou: «As comunidades costeiras da Europa enfrentam uma série de desafios económicos, sociais e ambientais inter-relacionados. Para superar esses desafios, é necessário promover uma economia azul sustentável e competitiva (incluindo a pesca e a aquicultura), manter oceanos saudáveis, resilientes e produtivos e elaborar uma estratégia abrangente para o conhecimento, a investigação, a inovação e o investimento no que diz respeito ao meio marinho.»

O CESE solicita que se avance no sentido de racionalizar a governação entre as agências da UE, melhorar o ordenamento do espaço marítimo e investir em investigação através de programas como o Horizonte Europa. Advoga igualmente a elaboração de um plano de ação para «os alimentos da economia azul», uma construção naval sustentável e uma transição justa para os trabalhadores do setor marítimo. É essencial apoiar o património costeiro e a participação dos jovens.

Para que o pacto seja um êxito, necessita de uma vontade política forte, de financiamento e de responsabilização. Se for bem feito, pode posicionar a Europa como líder mundial na sustentabilidade dos oceanos, proporcionando simultaneamente resiliência ecológica e oportunidades económicas. (ks) 

Portas abertas, sorrisos rasgados – O Dia da Europa chegou, e estamos à sua espera!

Em 10 de maio, descubra a casa e o coração da sociedade civil organizada europeia no Comité Económico e Social Europeu, no edifício Jacques Delors, rue Belliard 99, 1040 Bruxelas.

Read more in all languages

Em 10 de maio, descubra a casa e o coração da sociedade civil organizada europeia no Comité Económico e Social Europeu, no edifício Jacques Delors, rue Belliard 99, 1040 Bruxelas.

Este ano, o Dia da Europa é particularmente especial, porque se comemora o 75.º aniversário da Declaração Schuman – a base histórica da unidade e da cooperação europeias. Nesta ocasião venerável, o CESE abre as suas portas para um dia inteiro de atividades participativas, informativas e recreativas e para uma visita de descoberta.
Haverá algo de interessante para todos, tanto para apaixonados pela política como para jovens mentes curiosas.

Carimbe o seu passaporte ao longo da visita de descoberta pelo CESE:

  • Participe em jogos engraçados em todos os stands temáticos.
  • Carimbe o seu passaporte pessoal em cada um deles.
  • Devolva o seu passaporte preenchido e receba uma recompensa especial!

Não perca a oportunidade de se encontrar e conversar com o presidente do CESE, Oliver Röpke, num stand específico! 
Estará lá para acolher os visitantes, responder às suas perguntas e partilhar a sua visão para a sociedade civil europeia – uma oportunidade ímpar de contactar diretamente com a liderança do CESE.

Divirta-se ainda mais com:

  • um caricaturista, que fará o seu retrato;
  • um cantinho das crianças cheio de jogos;
  • uma cabina fotográfica curtida;
  • uma roda da sorte com montes de surpresas;
  • e uma simulação de votação em tempo real, em que pode pôr-se no lugar de um membro do CESE!

Mais: descubra de que forma as nossas secções e grupos ajudam a configurar as políticas e os valores da UE.

Venha celebrar as ideias que unem a Europa. Venha com amigos, com a família ou sozinho – mas NÃO PERCA!

É mais que uma visita: venha cheio de curiosidade, parta cheio de inspiração!

Saiba mais sobre todas as atividades do CESE no Dia da Europa: Junte-se a nós em 10 de maio para o Dia da Europa! | CESE.

#EuropeDay (kk)

Anote na sua agenda: Semana Verde chega a Bruxelas em junho

A Semana Verde decorre de 3 a 5 de junho e centra-se em três princípios: soluções limpas, competitividade e circularidade.

Read more in all languages

A Semana Verde decorre de 3 a 5 de junho e centra-se em três princípios: soluções limpas, competitividade e circularidade.

A Plataforma Europeia das Partes Interessadas na Economia Circular, uma iniciativa emblemática do Comité Económico e Social Europeu (CESE) e da Comissão Europeia, orgulha-se de coorganizar a Semana Verde de 2025, que se centra na importância das soluções circulares para uma UE competitiva. A conferência deste ano abordará o papel que pode caber à economia circular no reforço da competitividade sustentável, na redução dos resíduos e enquanto motor da inovação. Em 3 e 4 de junho, nos debates de alto nível, serão analisados os aspetos políticos da economia circular. Em 5 de junho, terão lugar debates aprofundados com as partes interessadas sobre o potencial da circularidade para uma Europa eficiente em termos de recursos e competitiva.

O evento será também a ocasião para apresentar o relatório do diálogo com as partes interessadas, realizado em 10 de abril no CESE. Este evento preparatório da conferência constituiu a oportunidade para as partes interessadas participarem em debates importantes sobre o Pacto da Indústria Limpa, a Estratégia para a Bioeconomia e o futuro ato legislativo sobre economia circular.

Pode inscrever-se na conferência da Semana Verde nesta página. (ac)

Notícias dos grupos

Europa necessita de capacidade financeira à altura das suas ambições

Por Antonio García Del Riego, membro do Grupo dos Empregadores do CESE

A Europa encontra-se numa encruzilhada da sua história, perante desafios críticos, que vão da transição ecológica à guerra mesmo às suas portas, passando pela concorrência cada vez mais intensa a nível mundial. Para fazer face a estes desafios não bastam declarações políticas. É necessário capital, bem como capacidade para mobilizar, canalizar e multiplicar esse capital. Em suma, um sistema financeiro forte, competitivo e autónomo. Infelizmente, não é isso que acontece.

Read more in all languages

Por Antonio García Del Riego, membro do Grupo dos Empregadores do CESE

A Europa encontra-se numa encruzilhada da sua história, perante desafios críticos, que vão da transição ecológica à guerra mesmo às suas portas, passando pela concorrência cada vez mais intensa a nível mundial. Para fazer face a estes desafios não bastam declarações políticas. É necessário capital, bem como capacidade para mobilizar, canalizar e multiplicar esse capital. Em suma, um sistema financeiro forte, competitivo e autónomo. Infelizmente, não é isso que acontece.

O financiamento é o fluxo sanguíneo de qualquer economia moderna. A construção de novas fábricas, o fabrico de veículos elétricos, a expansão de hospitais e as empresas em fase de arranque no setor das tecnologias limpas dependem em última análise de um investidor que assuma o risco do projeto. Na Europa, esse investidor é frequentemente um banco. As pequenas e médias empresas (PME), que representam 99% das empresas da UE, dependem, na sua esmagadora maioria, do crédito bancário para crescer, investir e exportar. No entanto, as instituições bancárias, que constituem o núcleo do nosso ecossistema de financiamento, correm o risco de ser estranguladas pela regulamentação e ultrapassadas pelos concorrentes.

Na UE, invoca-se frequentemente a «autonomia estratégica» nos domínios da energia, da defesa e das infraestruturas digitais, mas a autonomia financeira raramente é mencionada, apesar da sua importância.

Atualmente, quatro bancos americanos são responsáveis por mais de 60% das atividades bancárias de investimento na Europa. As futuras regras de Basileia IV serão plenamente aplicadas na UE, mas não nos EUA, no Reino Unido ou no Japão. Esta assimetria coloca os bancos europeus em desvantagem concorrencial. Para que as instituições bancárias europeias possam financiar a dupla transição e apoiar setores estratégicos, temos de assegurar que competem em pé de igualdade com os outros intervenientes mundiais.

A União dos Mercados de Capitais deve ir além da retórica e tornar-se um verdadeiro mercado único da poupança e dos investimentos. Para alcançarmos estes objetivos, precisamos de uma regulamentação inteligente, proporcionada e favorável, que proporcione estabilidade, proteja os consumidores e estimule o crescimento e a competitividade. Tal implica:

  • proporcionalidade;
  • neutralidade tecnológica; e
  • regras baseadas em resultados.

A Europa não pode dar-se ao luxo de ser ingénua. Num mundo cada vez mais moldado pela política da força e pelos blocos económicos, a soberania reside na capacidade financeira. Os Estados Unidos e a China agem de acordo com este princípio. E nós devíamos fazer o mesmo.

Tarifas, desinformação e caos: o que se segue para a Europa?

Pelo Grupo dos Trabalhadores do CESE

«É impossível alguém mentir, a não ser que pense conhecer a verdade. Dizer disparates, pelo contrário, não exige essa convicção.» A obra do filósofo Harry G. Frankfurt, On Bullshit, parece particularmente pertinente após o chamado «Dia da Libertação», em Washington. 

Read more in all languages

Pelo Grupo dos Trabalhadores do CESE

«É impossível alguém mentir, a não ser que pense conhecer a verdade. Dizer disparates, pelo contrário, não exige essa convicção.» A obra do filósofo Harry G. Frankfurt, On Bullshit, parece particularmente pertinente após o chamado «Dia da Libertação», em Washington.

Em 2 de abril, o presidente dos EUA anunciou uma tarifa fixa de 10% para todas as importações, além de tarifas específicas para os «piores infratores». A lista de tais infratores foi exibida, ostentando os valores das «tarifas recíprocas» impostas a outros países, incluindo 20% para a UE. O facto de tais valores carecerem, em grande medida, de sentido e certamente não se coadunarem com uma definição adequada de tarifas recíprocas não preocupou, claramente, o presidente, nem o facto de o défice comercial da UE no setor dos serviços ser praticamente equivalente ao comércio global entre os dois blocos. De qualquer forma, a exatidão nunca foi o seu forte.

À medida que entramos numa nova guerra comercial assente no absurdo, que devem esperar os cidadãos? Um aumento da inflação, incerteza do mercado e um duro golpe nas indústrias europeias. Sairão os trabalhadores americanos beneficiados de tudo isto? O futuro o dirá.

Para além das tarifas, a UE deve proteger os seus trabalhadores e os postos de trabalho, atenuando os impactos iniciais, não só resultantes das tarifas, mas também da incerteza gerada pela sua arbitrariedade. Tal significa reativar a nossa procura interna e assegurar que a riqueza é redistribuída e utilizada de forma eficaz.

Significa igualmente proteger e investir nas nossas indústrias e setores essenciais, diversificar as fontes de energia, combater a crise do custo de vida e reformar a UE de modo a tornar o seu processo decisório eficaz. Uma sociedade forte e resiliente é a única forma de impedir que surjam outros Trump em todo o continente. Os parceiros sociais são um elemento fundamental dessa sociedade. Não é por acaso que um dos inimigos declarados do duo Musk-Trump são os sindicatos.

Sistemas europeus de proteção social sob pressão: Relatório de Observação da Pobreza de 2024 expõe desafios atuais

Pelo Grupo das Organizações da Sociedade Civil do CESE

Em 8 de abril, a Rede Europeia Antipobreza (EAPN) apresentou o seu mais recente Relatório de Observação da Pobreza, tendo como tema uma abordagem sistémica da proteção social.

Read more in all languages

Pelo Grupo das Organizações da Sociedade Civil do CESE

Em 8 de abril, a Rede Europeia Antipobreza (EAPN) apresentou o seu mais recente Relatório de Observação da Pobreza, tendo como tema uma abordagem sistémica da proteção social.

O relatório, cuja primeira apresentação teve lugar num evento coorganizado com o Grupo das Organizações da Sociedade Civil do Comité Económico e Social Europeu (CESE), em Bruxelas, aborda os desafios que cabe superar para garantir sistemas de proteção social fortes e resilientes. Este aspeto é particularmente relevante no contexto atual, uma vez que os Estados-providência da União Europeia (UE) se deparam com restrições financeiras cada vez maiores causadas pela limitação das despesas nacionais e pelo aumento das despesas com a defesa e a segurança.

O relatório, baseado nas conclusões de 19 organizações nacionais membros da EAPN, demonstra que a consecução de uma abordagem sistémica em prol de uma proteção social abrangente e eficaz requer políticas incorporadas em estratégias integradas de longo prazo que alinhem as dimensões económica, social e ambiental. Essas políticas devem basear-se em elementos objetivos sólidos, em dados e na participação significativa das pessoas em situação de pobreza.

As redes nacionais da EAPN estão a manifestar a sua apreensão quanto aos cortes nas despesas sociais. Além disso, indicadores como os elevados níveis de não utilização das prestações sociais continuam a suscitar preocupação quanto à eficácia de políticas que não chegam às pessoas que necessitam de prestações sociais e são elegíveis para as receber.

De acordo com o relatório, a resposta a um contexto em rápida mutação, marcado pela digitalização, pela guerra, pelo envelhecimento da população e pelas alterações climáticas, tem sido inadequada, destacando a necessidade de restabelecer uma abordagem sistémica das políticas sociais.

Juliana Wahlgren, diretora da EAPN, salientou a urgência da questão e afirmou que «a UE tem de proteger o Estado-providência e dar prioridade às despesas sociais. Para o efeito, o Relatório de Observação da Pobreza apresenta recomendações sobre o rendimento mínimo, a crise da habitação e a transição energética, entre outros aspetos. A eficiência e a adequação são essenciais. No próximo ano, a Comissão Europeia lançará a Estratégia da UE de Combate à Pobreza, mas só será bem-sucedida se os Estados-Membros adotarem uma abordagem verdadeiramente sistémica da proteção social. Com mais de 20% da população da UE em risco de pobreza, não podemos continuar a ter políticas fragmentadas – a proteção social deve ser forte, coordenada e eficaz.»

Séamus Boland, presidente do Grupo das Organizações da Sociedade Civil, declarou: «A erradicação da pobreza exige uma luta sem tréguas por parte de todos os Estados-Membros. Grande parte da pobreza na UE é intergeracional e pode ter um impacto particularmente negativo na vida das crianças e dos idosos. É essencial introduzir medidas especiais em matéria de educação, habitação e custos elevados da energia que visem as deficiências do sistema. Caso contrário, a UE, enquanto entidade política, terá dificuldade em manter a confiança dos seus cidadãos.»

Krzysztof Balon, vice-presidente do Grupo das Organizações da Sociedade Civil e relator do parecer do CESE sobre a primeira Estratégia da UE de Combate à Pobreza, anunciada nas orientações políticas da Comissão Europeia 2024-2029, declarou: «Uma Estratégia da UE de Combate à Pobreza eficaz deve basear-se nas experiências das pessoas em situação de pobreza e responder às suas necessidades. Deve igualmente apoiar as organizações da sociedade civil e envolvê-las na conceção e execução de projetos e medidas adequados para combater a exclusão social.»

O parecer do CESE será apresentado na reunião plenária do CESE de 16 e 17 de julho.

Soon in the EESC/Cultural events

Semana da Sociedade Civil 2025: a sociedade civil é fundamental para despolarizar a Europa

É sobre as organizações da sociedade civil que recai a missão de reforçar a coesão para despolarizar as sociedades, dado que têm a força e a motivação para proteger os espaços cívicos e democráticos. Esta foi a principal mensagem da segunda edição da Semana da Sociedade Civil, organizada pelo Comité Económico e Social Europeu (CESE), que debateu a tendência alarmante de polarização generalizada nas sociedades da UE.

Read more in all languages

É sobre as organizações da sociedade civil que recai a missão de reforçar a coesão para despolarizar as sociedades, dado que têm a força e a motivação para proteger os espaços cívicos e democráticos. Esta foi a principal mensagem da segunda edição da Semana da Sociedade Civil, organizada pelo Comité Económico e Social Europeu (CESE), que debateu a tendência alarmante de polarização generalizada nas sociedades da UE.

Mais de 800 pessoas, incluindo representantes de organizações da sociedade civil, organizações não governamentais (ONG) e organizações de juventude, bem como partes interessadas e jornalistas, reuniram-se no CESE, de 17 a 20 de março, por ocasião da Semana da Sociedade Civil, para partilhar pontos de vista e debater formas de reforçar a coesão e a participação nas sociedades polarizadas.

A Semana da Sociedade Civil acolheu 14 sessões organizadas por membros do Grupo de Ligação do CESE e por parceiros do Dia da Iniciativa de Cidadania Europeia, bem como a cerimónia de entrega do Prémio CESE para a Sociedade Civil. Os participantes elaboraram um conjunto abrangente de medidas concretas e exigências fundamentais para criar sociedades mais coesas, nomeadamente:

  • reforçar a coesão através da educação e da cultura;
  • proporcionar uma habitação sustentável e a preços acessíveis;
  • aumentar a participação pública através da Iniciativa de Cidadania Europeia;
  • assegurar uma transição justa inclusiva e um crescimento verde e azul;
  • elaborar uma estratégia europeia forte para a sociedade civil;
  • reforçar o apoio às organizações da sociedade civil e o seu financiamento;
  • associar os jovens à construção de uma Europa mais forte e mais resiliente;
  • impulsionar a inovação e a tecnologia em prol do bem comum.

Na sessão de encerramento, o presidente do CESE, Oliver Röpke, afirmou: «Ao concluirmos esta segunda edição da Semana da Sociedade Civil, sinto-me profundamente inspirado pela energia, resiliência e empenho dos intervenientes da sociedade civil de toda a Europa. Esta semana demonstrou que uma sociedade civil unida consegue conceber soluções que reforcem a nossa democracia, promovam a coesão social e construam uma Europa verdadeiramente ao serviço dos seus cidadãos.»

Henna Virkkunen, vice-presidente executiva da Comissão Europeia responsável pela Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia, salientou o papel crucial que as organizações da sociedade civil desempenham para orientar as sociedades em consonância com os valores europeus fundamentais.

Victor Negrescu, vice-presidente do Parlamento Europeu, lançou um forte apelo à ação, solicitando às organizações da sociedade civil que demonstrem a sua firmeza e reajam à retórica agressiva: «Precisamos de uma sociedade civil sólida e de uma verdadeira parceria entre a sociedade civil e os decisores políticos, a fim de construir em conjunto uma sociedade coesa com um impacto real na vida das pessoas.»

Os representantes das organizações da sociedade civil sublinharam que as sociedades civis não se limitam a ser prestadores de serviços: são um elemento fundamental da democracia e da participação. Nataša Vučković, secretária-geral da Fundação Centro para a Democracia na Sérvia, manifestou o seu otimismo quanto ao papel essencial que a sociedade civil pode desempenhar na luta contra as causas profundas e a propagação das narrativas antidemocráticas e antieuropeias, tanto na UE como nos países candidatos. Tal pode ser feito explicando o que faz a União Europeia e assegurando que os seus benefícios chegam a todos os cidadãos na sua vida quotidiana. (at)

Diagnóstico da Europa: Precariedade e insegurança fazem agora parte da normalidade

As nossas sociedades estão a ser consumidas pela doença silenciosa da precariedade generalizada, que faz com que as pessoas se sintam profundamente desamparadas e à mercê de forças que não controlam, afirma Albena Azmanova, professora universitária e autora premiada, que proferiu um discurso de apresentação pungente durante a Semana da Sociedade Civil do Comité Económico e Social Europeu (CESE). Nesta entrevista ao Boletim CESE Info, Albena Azmanova apresenta as principais causas desta epidemia, incluindo a tendência para dar prioridade à igualdade em detrimento da estabilidade económica.

Read more in all languages

As nossas sociedades estão a ser consumidas pela doença silenciosa da precariedade generalizada, que faz com que as pessoas se sintam profundamente desamparadas e à mercê de forças que não controlam, afirma Albena Azmanova, professora universitária e autora premiada, que proferiu um discurso de apresentação pungente durante a Semana da Sociedade Civil do Comité Económico e Social Europeu (CESE). Nesta entrevista ao Boletim CESE Info, Albena Azmanova apresenta as principais causas desta epidemia, incluindo a tendência para dar prioridade à igualdade em detrimento da estabilidade económica.

No seu discurso de apresentação durante a Semana da Sociedade Civil, falou sobre a epidemia de precariedade, que está na origem do declínio das liberdades políticas. Descreveu-a como uma doença silenciosa que nos está a levar à loucura. Pode aprofundar o que quer dizer com «epidemia de precariedade»? Como é que este fenómeno surge?

As pessoas estão cada vez mais exasperadas, e as mortes provocadas pelo desespero – em particular os suicídios no local de trabalho – estão a aumentar nas sociedades prósperas. Esta é a parte mais dolorosa e também mais visível de um grande icebergue de precariedade escondido, criado pela insegurança dos nossos meios de subsistência. A par da indignação das pessoas, a confiança nas instituições políticas está a diminuir, algo que ouvimos dizer frequentemente. A desconfiança pode ser saudável ao favorecer a prestação de contas. A ira pode ser produtiva ao desencadear a luta pela justiça e ao conduzir a uma transformação substantiva.

A atual doença das nossas sociedades – que no meu trabalho descrevo como a «precariedade generalizada» – é algo diferente. Trata-se de um tipo particular de insegurança, um sentimento de desamparo agudo, porque as pessoas sentem que estão à mercê de forças que não podem controlar.

A vivência da precariedade gera nas pessoas o sentimento de incapacidade para enfrentar as tarefas elementares das suas vidas, o que provoca o medo de cair, de perder o que se tem – o emprego, as poupanças, a capacidade de desempenho, a sanidade mental. Isso significa que o problema não é tanto a pobreza ou a desigualdade, mas sim o sentimento de perda, vivida ou antecipada, o medo de cair. É assim que as pessoas sentem a precariedade.

As sociedades sentem a precariedade como a incapacidade de tomarem conta de si próprias e de enfrentar a adversidade. Um exemplo é a COVID-19. Como se pode explicar que as nossas sociedades ricas, cientificamente brilhantes e institucionalmente sofisticadas tenham permitido que um problema de saúde pública, causado por um vírus que não era totalmente desconhecido nem demasiado mortal, se transformasse numa grave crise sanitária e, subsequentemente, numa crise económica e social? A resposta está na redução do investimento público pelos governos, nomeadamente nos cuidados de saúde.

A precariedade tem ainda outra faceta. É desencadeada por políticas específicas, pela combinação neoliberal de mercados livres e economias abertas, em que as decisões se baseiam na rendibilidade. A fim de assegurar a competitividade nacional ou da União Europeia (UE) no mercado mundial, no contexto de uma corrida pelo lucro à escala do planeta, as elites do centro-esquerda e do centro-direita apressaram-se a reduzir tanto a segurança do emprego (a fim de proporcionar às empresas a flexibilidade que as tornou competitivas) como as despesas com serviços públicos. Isso significa que todos têm mais responsabilidades, mas menos recursos para as assumir. Pedem-nos para fazermos mais com menos.

Por exemplo, a Comissão Europeia solicita aos Estados que façam mais pela justiça social, mas também que reduzam as despesas. Este desfasamento entre responsabilidades cada vez maiores e recursos cada vez mais escassos resulta num sentimento de incerteza e de dúvida sobre a nossa capacidade para tomar conta de nós próprios. Não é o tipo de incerteza saudável que nos leva a desbravar o mundo, a ponderar alternativas, a assumir riscos ou a testar as nossas capacidades. Em vez disso, trata-se de um receio tóxico, do medo de perder os seus meios de subsistência e de vir a enfrentar um futuro mais sombrio.

Na sua opinião, o que explica a ascensão de dirigentes autoritários e de partidos de direita? Como avalia atualmente as liberdades democráticas e o respeito pelos valores fundamentais da UE na Europa?

O crescimento do apoio aos dirigentes e partidos autoritários de direita deve-se à precariedade gerada pela política.  As pessoas sentem-se inseguras e, por isso, procuram segurança e estabilidade. Sentem-se desamparadas, pelo que depositam as esperanças em líderes fortes que proporcionarão estabilidade imediata com mão de ferro. Por exemplo, reforçam as despesas militares e os poderes da polícia – como a UE está prestes a fazer agora.

As sementes de tudo isto foram plantadas anteriormente por partidos centristas, uma vez que tornaram as nossas sociedades mais precárias por razões neoliberais. Na minha opinião, o centro-esquerda é particularmente responsável por esta situação lamentável. Embora a missão autoproclamada da social-democracia seja a luta pela justiça, centrou-se principalmente na luta contra uma forma de injustiça: a desigualdade. No entanto, o que as pessoas querem é estabilidade económica: capacidade para gerir as suas vidas e planear os seus futuros.

Por exemplo: podemos ter sociedades perfeitamente igualitárias, mas profundamente precárias – e isso dificilmente poderia ser visto como uma sociedade bem-sucedida. Além disso, as pessoas não querem necessariamente erradicar a desigualdade se isso significar serem tratadas como perdedores que são consolados (e humilhados) com uma pequena dose de redistribuição: o que querem, antes de mais, é não ser perdedores.

No seu discurso, falou também nos «Jogos Olímpicos da vitimização». Pode descrever esse fenómeno e explicar por que razão devemos evitá-lo?

Nas últimas cinco décadas, a luta contra a discriminação assumiu a forma de políticas identitárias. Os grupos que historicamente eram alvo de discriminação foram tratados como «minorias protegidas», sendo o seu estatuto elevado através de medidas de discriminação positiva, como promoções específicas e sistemas de quotas. Quando tal ocorre num contexto de precariedade generalizada, em que os empregos de qualidade e outros recursos são escassos, estes grupos protegidos começam a competir por estes recursos limitados. Neste contexto, a vitimização torna-se uma espécie de «jóquer»: quanto mais forte for a perceção de vitimização, mais intensa será a reivindicação de proteção.

Por um lado, isto cria animosidade entre grupos concorrentes, minando a solidariedade. Por outro lado, nenhum deles ganha verdadeiramente, porque continuam todos a ser vítimas. No fundo, ser vítima e sofrer de discriminação é precisamente aquilo que justifica a reivindicação de proteção. Os únicos vencedores desta competição pérfida pelo acesso a recursos e a uma proteção especial são as elites, que magnanimamente oferecem a sua proteção. No final, os grupos desamparados acabam a lutar entre si como inimigos, ao passo que os seus protetores, as elites políticas, saem mais fortes. 

Tendo em conta tudo isso, o que é que torna a sociedade civil tão importante para a preservação da democracia e das liberdades cívicas que muitos de nós consideram um dado adquirido? Porque é que o antídoto para os abusos de poder é a sociedade civil e não a realização de eleições democráticas?

Quando votamos, estamos sozinhos. Sentimos intensamente o nosso desamparo e as frustrações da insegurança, e damos voz a essa ansiedade através do nosso voto. Isso explica a ascensão dos partidos reacionários em eleições livres e justas. A sociedade civil é movida por uma lógica diferente e tem uma fonte de poder especial: o sentimento de comunidade. Quando estamos com outras pessoas, unidos pelos laços de uma causa comum, não estamos sozinhos, sentimo-nos menos precários, menos desamparados, porque podemos contar com o apoio dos nossos camaradas. Quando a precariedade diminuir, o medo desaparecerá e poderemos pensar no futuro, poderemos pensar em grande.

Albena Azmanova é professora de Ciências Políticas e Sociais na City St George’s, Universidade de Londres, e coeditora da revista Emancipations. O seu mais recente livro, Capitalism on Edge (2020), ganhou diversos prémios, incluindo o Prémio Literário Michael Harrington, que a Associação Americana de Ciência Política atribui a «um trabalho excecional que mostra como a investigação académica pode ser utilizada na luta por um mundo melhor». 

A importância do pensamento crítico

«Ensinamos aos alunos que os factos têm de ser verificados, mas as opiniões devem ser debatidas com respeito. O verdadeiro pensamento crítico respeita a pluralidade de pontos de vista», afirma Richard Vaško, da Associação de Debate Eslovaca, que venceu o Prémio CESE para a Sociedade Civil por combater a polarização através das Olimpíadas do Pensamento Crítico. Richard Vaško, cujo projeto ganhou o primeiro prémio, falou-nos sobre estas olimpíadas e explicou por que é crucial ensinar a desenvolver o pensamento crítico no mundo polarizado de hoje, repleto de desinformação.

Read more in all languages

«Ensinamos aos alunos que os factos têm de ser verificados, mas as opiniões devem ser debatidas com respeito. O verdadeiro pensamento crítico respeita a pluralidade de pontos de vista», afirma Richard Vaško, da Associação de Debate Eslovaca (SDA), vencedora do Prémio CESE para a Sociedade Civil por combater a polarização através das suas Olimpíadas do Pensamento Crítico. Richard Vaško, cujo projeto ganhou o primeiro prémio, falou-nos sobre estas olimpíadas e explicou por que é crucial ensinar a desenvolver o pensamento crítico no mundo polarizado de hoje, repleto de desinformação.

Como funcionam os jogos e as rondas das Olimpíadas do Pensamento Crítico? Pode dar um exemplo de um exercício ou de uma pergunta?

Nas Olimpíadas do Pensamento Crítico, são organizadas rondas escolares e regionais, em que os alunos fazem testes que duram entre uma e duas horas, com acesso total à Internet e a ferramentas de verificação de factos em linha, e executam uma série de tarefas. Têm de enfrentar desafios relacionados com a literacia mediática, a deteção de ações manipulativas e tendenciosas, a interpretação de dados e de estudos, a identificação de lógicas falaciosas e a formulação dos próprios argumentos.

Por exemplo, numa ronda realizada recentemente, os alunos foram convidados a escrever um texto sobre a pertinência de instalar câmaras de vigilância nas escolas para reforçar a segurança – uma questão presente no discurso público atual da Eslováquia. Outro exercício consistia em analisar um vídeo viral do TikTok que promove uma teoria da conspiração sobre Taylor Swift e identificar as características típicas do pensamento conspiracionista. Num terceiro desafio, tinham de decidir qual de dois vídeos era gerado por inteligência artifical e qual era autêntico.

Todos os testes já realizados estão disponíveis ao público, em eslovaco, em www.okm.sk.

O que pretende alcançar com as Olimpíadas do Pensamento Crítico? O que o levou a lançar este projeto?

O nosso objetivo é ajudar os alunos, numa idade em que começam a utilizar as redes sociais e a consumir conteúdos digitais, a desenvolverem as competências necessárias para navegar nesse espaço de forma crítica, responsável e ponderada. Os alunos recebem informações regulares após cada ronda e frequentam cursos de aprendizagem à distância para se prepararem, adquirindo assim hábitos e ferramentas que podem reproduzir e aplicar na vida quotidiana. Em última análise, pretendemos formar uma geração de jovens informados, resistentes à desinformação e capazes de participar num diálogo construtivo e assente em factos.

Lançámos este projeto em resposta a uma lacuna grave no nosso sistema educativo: a literacia mediática e o pensamento crítico ainda têm pouco peso nos programas curriculares do ensino formal. Mais de metade dos estudantes eslovacos não aprendem a avaliar a fiabilidade das informações. Apenas 16% dos jovens eslovacos verificam regularmente as informações provenientes dos meios de comunicação social. Consequentemente, 56% da população tende a acreditar em teorias da conspiração ou mentiras puras. Queríamos mudar esta situação, lançando uma iniciativa escalável e com impacto em escolas de todo o país.

Por que razão considera tão importante desenvolver o pensamento crítico no contexto atual? Temos alguma hipótese de ganhar a guerra contra as notícias falsas?

As notícias falsas sempre existiram de uma forma ou de outra, mas vivemos agora numa era de sobrecarga de informação sem precedentes. Sendo as redes sociais a principal fonte de informação para muitos jovens, qualquer pessoa pode facilmente difundir desinformação, notícias falsas ou discurso de ódio. Aprender a filtrar a informação e a navegar neste panorama caótico de informação passou a ser uma competência fundamental para a vida.

No entanto, nunca conseguiremos «ganhar» totalmente a guerra contra as notícias falsas. É um alvo em movimento, que evolui constantemente. O que podemos fazer, isso sim, é munir os jovens dos instrumentos necessários para se orientarem melhor neste ambiente, fazerem as perguntas certas e pensarem antes de partilhar.

Recebeu alguma informação sobre os resultados do projeto? Pode dar algum exemplo?

Recolhemos opiniões pormenorizadas após cada ronda e as respostas são, na sua esmagadora maioria, positivas. Por exemplo, 93% dos professores cujos alunos participaram nas olimpíadas afirmaram que esta iniciativa ajuda a aumentar a resistência dos seus alunos à desinformação e a embustes. Além disso, a nossa «pontuação líquida do promotor» (um parâmetro métrico central de satisfação dos utilizadores) atingiu +76 na última ronda, o que é considerado excelente.

Que conselho daria a outras organizações da sociedade civil para que sejam bem-sucedidas em atividades ou programas deste tipo?

Cada país e cada contexto é único e as organizações locais são as que melhor sabem o que funciona nas suas comunidades. Mas posso enumerar alguns princípios que funcionaram bem para nós.

Em primeiro lugar, e o mais importante, não dizemos aos jovens o que devem pensar. O verdadeiro pensamento crítico respeita a pluralidade de pontos de vista. Se sentirem que as suas opiniões estão a ser ignoradas ou impostas, os alunos desinteressam-se. Ensinamos-lhes que os factos têm de ser verificados, mas as opiniões devem ser debatidas com respeito.

Em segundo lugar, a acessibilidade e a inclusividade são elementos fundamentais. Se não «rebentarmos a bolha» e não formos além das escolas de elite, não teremos um impacto real. O nosso programa é gratuito, totalmente em linha, bastante acessível e também está disponível na língua da nossa maior minoria étnica. Este ano, 53% dos participantes frequentavam escolas profissionais do ensino secundário.

Em terceiro lugar, devemos pensar na escalabilidade desde o início e tirar partido das novas tecnologias para o efeito. Utilizamos a inteligência artificial para classificar as respostas de perguntas abertas, o que nos permite assegurar uma experiência educativa de elevada qualidade sem recorrer a testes de escolha múltipla. Embora a era digital tenha trazido consigo grandes desafios, também nos fornece ferramentas poderosas para os superar.

Richard Vaško é membro da Associação de Debate Eslovaca (SDA) desde os 12 anos de idade. Venceu o torneio nacional de debate da Eslováquia no ensino secundário e representou a Eslováquia em torneios mundiais de debates escolares. Licenciou-se com excelentes notas em Direito, Política e Filosofia na Universidade de Warwick, Reino Unido, e atualmente frequenta um mestrado em Educação (Conhecimento, Poder, Política) na Universidade de Cambridge.

Trabalha na SDA desde 2021, onde fundou e agora coordena as Olimpíadas do Pensamento Crítico. Trabalhou também com a equipa de comunicação estratégica do Ministério da Educação da Eslováquia e elaborou em coautoria manuais de formação de professores em literacia mediática para o Instituto Nacional de Educação e Juventude. Realiza investigação e organiza uma escola de verão multiétnica para crianças desfavorecidas, em conjunto com o instituto Mathias Bel, uma organização não governamental dedicada às minorias étnicas e às comunidades ciganas marginalizadas na Eslováquia.

O PRÉMIO CESE PARA A SOCIEDADE CIVIL EM POUCAS PALAVRAS

O emblemático Prémio CESE para a Sociedade Civil, que já vai na sua 15.ª edição, destina-se a recompensar projetos que abordam de forma particularmente criativa e inovadora questões muito relevantes para a UE.

Read more in all languages

O emblemático Prémio CESE para a Sociedade Civil, que já vai na sua 15.ª edição, destina-se a recompensar projetos que abordam de forma particularmente criativa e inovadora questões muito relevantes para a UE.

São elegíveis as candidaturas de quaisquer organizações da sociedade civil registadas oficialmente na União Europeia e que atuem a nível local, regional, nacional ou europeu. O prémio está igualmente aberto a pessoas singulares que residam na UE, bem como a empresas registadas ou que operem na UE, desde que os seus projetos não tenham fins lucrativos.

Todas as iniciativas e os projetos elegíveis têm de ser realizados na UE. Devem já ter sido implementados ou estar ainda em curso antes da data limite de apresentação das candidaturas.

O objetivo do prémio é sensibilizar para o contributo excecional da sociedade civil no sentido de criar uma identidade e cidadania europeias e promover os valores comuns que reforçam a integração europeia.

Todos os anos, o prémio centra-se num tema diferente. Em 2023, foram reconhecidos projetos centrados na saúde mental. Em 2022, o CESE atribuiu excecionalmente o prémio a dois temas: a juventude e a Ucrânia. Em 2021, o prémio distinguiu projetos no domínio do clima que promovem a transição justa. Em 2020, o CESE substituiu excecionalmente o Prémio CESE para a Sociedade Civil pelo Prémio CESE para a Solidariedade Civil, dedicado à luta contra a COVID-19. Entre outros temas de edições passadas figuram a igualdade de género e a capacitação das mulheres, a identidade europeia e o património cultural europeu, ou ainda a migração.

Em outubro de 2024, o CESE lançou a 15.ª edição do seu Prémio para a Sociedade Civil dedicado à luta contra a polarização nefasta da sociedade europeia.

O tema da polarização é hoje mais urgente do que nunca. Num contexto em que múltiplas crises se sobrepõem – incluindo a pandemia de COVID-19, a guerra da Rússia na Ucrânia e uma instabilidade social e económica generalizada –, cresce a desconfiança nas instituições públicas e nas autoridades, criando uma polarização nefasta.

A sociedade civil tem um papel fundamental no combate a esta desconfiança e na vigilância dos focos de polarização, em linha e fora de linha, melhorando a coesão social e defendendo os ideais democráticos. Juntamente com os poderes públicos, a sociedade civil pode ajudar a proteger a democracia liberal contra tendências autoritárias.

Por este motivo, o CESE decidiu que a mais recente edição do Prémio para a Sociedade Civil distinguirá iniciativas sem fins lucrativos que intervenham eficazmente através da aplicação de medidas preventivas, mecanismos de alerta precoce e (quando necessário) medidas de apaziguamento, que asseguram o respeito pelos valores democráticos e impedem que a polarização se torne nefasta e que as narrativas unilaterais suscitem atos de violência.

CONHEÇA OS VENCEDORES

O 15.º Prémio CESE para a Sociedade Civil distinguiu três organizações, provenientes da Eslováquia, Bélgica e França, pelo seu trabalho inspirador no combate à polarização negativa em toda a Europa. Os vencedores foram revelados na cerimónia de entrega dos prémios, que teve lugar em 20 de março, durante a Semana da Sociedade Civil.  

Read more in all languages

O 15.º Prémio CESE para a Sociedade Civil distinguiu três organizações, provenientes da Eslováquia, Bélgica e França, pelo seu trabalho inspirador no combate à polarização negativa em toda a Europa. Os vencedores foram revelados na cerimónia de entrega dos prémios, que teve lugar em 20 de março, durante a Semana da Sociedade Civil.  

O prémio monetário foi partilhado entre os três melhores classificados, tendo o primeiro laureado recebido 14 000 euros. O segundo e o terceiro receberam 9 000 euros cada.

PRIMEIRO PRÉMIO: Associação de Debate Eslovaca pelas Olimpíadas do Pensamento Crítico

A Associação de Debate Eslovaca (SDA) é uma ONG eslovaca cuja missão é promover a abertura de espírito e o pensamento crítico e fomentar a cidadania ativa entre os jovens eslovacos. A SDA organiza uma série de programas que ensinam os jovens a avaliar factos e opiniões, a construir os seus próprios argumentos e a pensar de forma crítica sobre as mensagens dos meios de comunicação social, a fim de identificar fontes de informação credíveis. Com as suas atividades, a organização proporciona um espaço de debate aberto e público sobre as principais questões com que se confronta a sociedade eslovaca.

As Olimpíadas do Pensamento Crítico, lançadas em 2021, são uma das iniciativas mais bem-sucedidas da SDA, tendo alcançado uma ampla difusão. No ano passado, participaram quase 9 000 alunos provenientes de mais de 300 escolas. Este projeto inovador assume a forma de uma competição que aumenta a resistência à desinformação entre os estudantes. A desinformação está bem patente na Eslováquia: 61% dos eslovacos não confiam nos meios de comunicação social e mais de metade acreditam em alguma teoria da conspiração. As Olimpíadas do Pensamento Crítico combatem este problema através da promoção da literacia mediática e da mudança dos hábitos de consumo de conteúdos pelos jovens.

A competição destina-se a estudantes de três grupos etários (dos 8 aos 13 anos) e está organizada em três rondas, durante as quais os participantes são testados em situações do mundo real relacionadas com os meios de comunicação social. Os exercícios são concebidos de molde a refletir os conteúdos a que os alunos podem estar expostos na sua vida quotidiana. Os jovens analisam vídeos do TikTok, verificam a veracidade de conteúdos criados por inteligência artificial e avaliam publicações do Instagram, tentando distinguir entre factos e informações falsas. Também participam num debate público, no qual devem defender os seus argumentos perante os seus pares.

«As Olimpíadas do Pensamento Crítico combatem a polarização da sociedade ensinando milhares de alunos a adotar uma perspetiva pluralista, a reconhecer enviesamentos cognitivos e a exprimir os seus pontos de vista de forma construtiva», afirma Richard Vaško, fundador e coordenador do programa. «Ao reforçarmos o pensamento crítico e a literacia mediática através desta intervenção baseada nas competências, capacitamos os jovens para resistir à desinformação e compreender os diversos matizes dos debates sociais.»

SEGUNDO PRÉMIO: Reporters d'Espoirs de França pelo Prix Européen Jeunes Reporters d’Espoirs

A Reporters d’Espoirs é uma ONG francesa sem fins lucrativos, fundada em 2003, à qual se deve a criação do «jornalismo de soluções», uma forma de jornalismo amplamente praticada na atualidade que procura respostas para os desafios da sociedade contemporânea. A organização incentiva os jornalistas a adotarem esta mentalidade positiva e premeia as melhores reportagens e inovações editoriais de jornalistas e estudantes.

O Prix Européen Jeunes Reporters d’Espoirs é uma iniciativa com um objetivo duplo: dar formação e premiar iniciativas no domínio do jornalismo de soluções em língua francesa. Este programa multifacetado proporciona aos participantes a oportunidade de se familiarizarem com o jornalismo de soluções através de um curso em linha organizado em conjunto com a Escola de Jornalismo de Aix-Marseille. Cada participante tem à sua disposição um mentor para ajudar a melhorar a sua escrita e capacidade de expressão oral e recebe formação para apresentar os seus projetos («pitching»). Os premiados ganham também uma viagem de dois dias a Paris, para participar num evento de formação em que se reúnem com outros jornalistas e peritos de toda a Europa que partilham as mesmas ideias. Nessa mesma ocasião são entregues os prémios aos seis vencedores, no valor total de 10 000 euros.

«A luta contra a polarização é inerente ao jornalismo de soluções, uma forma de jornalismo que visa dar a ver a complexidade do mundo, a pluralidade de intervenientes e os diferentes níveis em que atuam, em conjunto ou separadamente, em todos os países do mundo, colocando também a tónica na capacidade de difusão das iniciativas locais», refere Gilles Vanderpooten, diretor da Reporters d'Espoirs.

Nas suas três primeiras edições, o concurso recebeu mais de 400 candidaturas de 25 países. Presentemente, a 4.ª edição está em vias de ultrapassar as 300 candidaturas. A organização já apoiou a formação em francês, tanto escrito como oral, de mais de 75 participantes.

O projeto é facilmente replicável e a equipa já está a debater parcerias com jornalistas em Espanha, Itália e Bélgica para expandir o concurso a esses países.

«A nossa ambição é que o prémio ultrapasse os limites do mundo francófono e se exapanda a outras línguas da União Europeia», afirmou Gilles Vanderpooten. «Esta é a forma de envolver cada vez mais jovens na “Europa das soluções”», acrescentou.

TERCEIRO PRÉMIO: FEC Diversité asbl da Bélgica pelo projeto «ESCAPE GAME EXTREME DROITE pour se désintoxiquer»

Na Europa e em todo o mundo, as ideologias de direita estão a enraizar-se. Os partidos de extrema-direita estão a ganhar terreno e o populismo está a aumentar. A organização belga sem fins lucrativos FEC Diversité concebeu uma iniciativa para lutar contra a difusão destas ideias junto de professores, sindicatos e cidadãos comuns.

«ESCAPE GAME EXTREME DROITE pour se désintoxiquer» é um jogo de evasão em que os jogadores se tentam «descontaminar» das ideologias de extrema-direita de forma divertida e interessante. Os jogadores são informados de que foram infetados com ideologias de extrema-direita e têm de se descontaminar realizando uma série de tarefas, através das quais aprendem como as ideias de extrema-direita são difundidas e reforçadas na sociedade.

O jogo é composto por quatro zonas, cada uma com provas específicas que os jogadores devem superar. Na zona A, os jogadores participam em debates sobre o impacto da extrema-direita no local de trabalho, ao interagirem com 19 objetos. Na zona B, leem testemunhos reais de migrantes que explicam o significado das suas viagens para a Europa. Na zona C, o som de um «discurso de extrema-direita» é acompanhado por imagens. Na zona D os jogadores familiarizam-se com um relatório sobre um partido de extrema-direita, antes de resolverem palavras cruzadas.

Os jogadores são acompanhados no jogo imersivo por treinadores em fatos e máscaras antigás, com voz alterada. A ideia dos vários desafios é mobilizar os cinco sentidos para que a experiência seja o mais real possível, sensibilizando os participantes para os riscos que a democracia enfrenta na Europa.

Desde o seu lançamento, em junho de 2023, já foram «descontaminados» perto de 1000 jogadores e o jogo difundiu-se nos sindicatos, organizações e escolas da Bélgica e não só. Vieram participantes de França e da Bulgária para experimentar o jogo com vista à sua reprodução noutros países.

«Temos orgulho em ter criado uma ferramenta educativa inovadora que aborda a questão das ideologias de extrema-direita de forma interativa e interessante», afirma Malika Borbouse da FEC Diversité. «Ao promover o diálogo e a reflexão coletiva, a nossa iniciativa contribui para reduzir as tensões e para promover uma sociedade mais inclusiva.»

Conheça alguns dos outros candidatos

A edição deste ano do Prémio atraiu 58 candidaturas de indivíduos, empresas privadas e organizações da sociedade civil de vários Estados-Membros, refletindo uma ampla distribuição geográfica. 

Read more in all languages

A edição deste ano do Prémio atraiu 58 candidaturas de indivíduos, empresas privadas e organizações da sociedade civil de vários Estados-Membros, refletindo uma ampla distribuição geográfica.

As candidaturas abrangeram uma grande variedade de temas, designadamente a participação e capacitação dos jovens, a coesão e inclusão sociais, a literacia mediática, a desinformação, os direitos humanos e a igualdade de género.

Muitas iniciativas abordam o problema na raiz e contribuem para prevenir a polarização.

Iniciativas como a Euth Voices for Social Change, gerida pela organização sem fins lucrativos Youthmakers Hub, na Grécia, visa capacitar os jovens para cultivarem mudanças positivas nas suas comunidades. Tais projetos combatem a polarização nociva, construindo uma cultura de tolerância, incentivando as pessoas a participarem em diálogos construtivos e a resistirem a narrativas fraturantes, por exemplo, através da formação em literacia digital e de gravações em formato áudio («podcasting»).

Outros projetos combatem narrativas polarizantes e a radicalização. Colmatam as lacunas culturais, étnicas e geracionais, abordam as clivagens sociais, promovem a compreensão mútua e a cooperação, defendem os direitos fundamentais e inspiram a coesão social.

A iniciativa DEMDIS Digital Discussion, lançada pela DemDis na Eslováquia, criou uma nova plataforma de software para acolher um debate digital justo – mesmo sobre temas controversos. Os utilizadores votam em declarações e são colocados em grupos de opinião diferentes. Ao encontrar terreno comum, o projeto cria pontes entre estes campos polarizados.

O Human Rights Guide da Sociedade de Direitos Humanos do Báltico é um exemplo da forma como a sociedade civil pode trabalhar para defender os direitos humanos. O guia funciona como uma plataforma para a educação em direitos humanos, oferecendo explicações multilingues sobre a forma como os direitos humanos podem e devem funcionar em situações específicas da vida quotidiana.

As candidaturas deste ano continham também várias abordagens culturais e artísticas para combater a polarização, tais como o Atlas géopolitique de la culture et des médias indépendants en Europe da Arty Farty. Esta iniciativa destaca temas prioritários para uma rede de organizações culturais e de meios de comunicação social independentes em toda a Europa, designadamente a inclusão, a redução das clivagens territoriais ou a necessidade de combater a desinformação. Tais projetos demonstram que a cultura e os meios de comunicação social podem desempenhar um papel transformador na despolarização da sociedade.

 

Dia da ICE 2025: essencial explorar todo o potencial da Iniciativa de Cidadania Europeia

A Iniciativa de Cidadania Europeia revelou-se um instrumento eficaz para aumentar a participação dos cidadãos na vida política da UE. Mas precisa de ser reforçada para que as instituições da UE não se distanciem do cidadão europeu comum.

Read more in all languages

A Iniciativa de Cidadania Europeia revelou-se um instrumento eficaz para aumentar a participação dos cidadãos na vida política da UE. Mas precisa de ser reforçada para que as instituições da UE não se distanciem do cidadão europeu comum.

A Iniciativa de Cidadania Europeia (ICE) é um mecanismo participativo da UE que foi concebido para reforçar a democracia direta, permitindo que pelo menos um milhão de cidadãos da UE (com um determinado número mínimo de nacionais de, pelo menos, sete Estados-Membros) solicitem à Comissão Europeia que proponha um ato legislativo num domínio em que os Estados-Membros tenham transferido as suas competências para o nível da UE.

Desde 2012, ano em que foi lançada a ICE, a Comissão Europeia registou 119 iniciativas e os seus organizadores recolheram cerca de 20 milhões de assinaturas. Até à data, foram validadas 11 iniciativas, 10 das quais já obtiveram resposta da Comissão.

O Dia da Iniciativa de Cidadania Europeia, organizado anualmente pelo Comité Económico e Social Europeu (CESE), constitui um fórum e uma plataforma de relevo, em que os organizadores de iniciativas de cidadania europeia, já registadas ou futuras, e partes interessadas pertinentes podem trocar informações e experiências e dar a conhecer ao público em geral as ICE e atividades que organizam.

Este ano, o Dia da ICE realizou-se em 18 de março, no âmbito da Semana da Sociedade Civil.

«A UE deve continuar a tomar medidas a favor da democracia participativa, complementando o seu formato representativo. A ICE é o primeiro instrumento de democracia participativa com caráter transnacional», afirmou Laurenţiu Plosceanu, vice-presidente do CESE responsável pela Comunicação.

Segundo Teresa Anjinho, Provedora de Justiça Europeia, a ICE é um instrumento poderoso, mas ainda não se explorou todo o seu potencial. «Temos de melhorar a comunicação sobre os seus objetivos e as suas funções. É necessário intensificar as campanhas de sensibilização para informar cabalmente as pessoas sobre o que uma ICE pode e não pode fazer, capacitando-as para agir. Para preservar a ICE enquanto instrumento importante, é necessária transparência, honestidade e comunicação. Se não conseguirmos isso, também não conseguiremos manter a confiança neste instrumento, nem no futuro da nossa União», afirmou Teresa Anjinho.

No Dia da ICE, foram apresentadas nove iniciativas, relacionadas nomeadamente com o acesso à água, a segurança alimentar, o aborto, os direitos das pessoas LGBTQ+, a proteção dos edifícios existentes contra a demolição, a proteção do património dos videojogos, um novo modelo para reduzir as emissões através de quotas no transporte aéreo, e novas normas de saúde aplicáveis à utilização de substâncias psicadélicas para efeitos terapêuticos.

Em resposta aos apelos para garantir o financiamento das iniciativas de cidadania europeia, Adriana Mungiu, chefe da equipa responsável pela ICE no Secretariado-Geral da Comissão Europeia, instou os ativistas a não esperarem soluções orçamentais novas e dificilmente concretizáveis consagradas unicamente às ICE. Em vez disso, devem aproveitar melhor os fundos disponíveis no atual orçamento da UE, designadamente nos capítulos dedicados à participação dos cidadãos. (at)

Três formas de aproximar os europeus da Europa graças à Iniciativa de Cidadania Europeia

Por Daniela Vancic

A Iniciativa de Cidadania Europeia (ICE) é verdadeiramente única: não há qualquer outro instrumento no mundo que permita aos cidadãos ter um impacto direto na legislação. No entanto, ainda não obteve o reconhecimento que merece, afirma Daniela Vancic, responsável pelas políticas e sensibilização europeias na Democracy International, que partilhou connosco três ideias para tornar a ICE mais eficaz.

Read more in all languages

Por Daniela Vancic

A Iniciativa de Cidadania Europeia (ICE) é verdadeiramente única: não há qualquer outro instrumento no mundo que permita aos cidadãos ter um impacto direto na legislação. No entanto, ainda não obteve o reconhecimento que merece, afirma Daniela Vancic, responsável pelas políticas e sensibilização europeias na Democracy International, que partilhou connosco três ideias para tornar a ICE mais eficaz.

A Iniciativa de Cidadania Europeia é um dos instrumentos democráticos mais poderosos da UE, logo a seguir às eleições europeias. Nos seus 13 anos de existência, envolveu mais de 20 milhões de cidadãos, demonstrando ser uma plataforma essencial para a participação. No entanto, apesar do seu potencial, a ICE raramente recebe o reconhecimento que merece.

Eis a razão pela qual a ICE é importante, e três ideias para aumentar o seu impacto.

Papel da ICE num mundo polarizado

O que torna a ICE verdadeiramente única? Não existe nenhum instrumento semelhante em qualquer parte do mundo. A ICE permite aos cidadãos influenciar diretamente a legislação, desde que obtenham apoio em, pelo menos, sete Estados-Membros da UE. Num momento em que a polarização política está a aumentar, a ICE funciona como uma ponte vital entre os cidadãos e os decisores políticos, promovendo a colaboração, criando ligações e impulsionando uma verdadeira mudança.

A ICE visa, essencialmente, inspirar as pessoas a participarem na elaboração das políticas. Reúne diversos grupos, estimula o debate público e amplifica as vozes na cena europeia. Por exemplo, a iniciativa My Voice, My Choice, que obteve recentemente mais de um milhão de assinaturas, mobilizou uma rede de ativistas, organizações e figuras públicas (incluindo personalidades internacionais como Barack Obama) e desencadeou um debate mais amplo sobre os valores fundamentais. Este tipo de mobilização cria um valor duradouro, tanto para a causa defendida como para a própria democracia.

Agir de forma atempada é fundamental

A ICE tem um enorme potencial democrático, mas, para o aproveitar plenamente, é essencial que as instituições da UE tomem medidas em tempo útil. Embora algumas iniciativas, como a campanha End the Cage Age (Acabar com as gaiolas), tenham conduzido a mudanças positivas nas políticas da UE, existe frequentemente um atraso significativo entre o apoio do público a uma ICE e o seu seguimento legislativo. Esta situação pode ser frustrante tanto para os cidadãos como para a sociedade civil, e acarreta o risco de estes perderem a confiança no processo.

A fim de manter a dinâmica, a UE deve considerar a possibilidade de acelerar o tratamento das ICE que recebem um apoio maciço do público. Embora a elaboração de legislação da UE exija tempo, quando uma ICE tem um apoio claro e generalizado deve ser objeto de especial atenção e diligência. Os cidadãos devem poder ver as suas ideias rapidamente transformadas em ações, para que a ICE se torne um catalisador de mudanças oportunas e um instrumento que exerça influência.

Assegurar que as organizações da sociedade civil desempenham um papel nas reformas da UE

As organizações da sociedade civil estiveram sempre no centro da ICE, mobilizando os cidadãos e sensibilizando para o potencial do instrumento. Desde o início, organizações como a Democracy International desempenharam um papel crucial no desenvolvimento destas iniciativas e no apoio às mesmas. Mas o papel da sociedade civil não acaba aqui.

Estas organizações devem continuar a defender reformas suscetíveis de reforçar a ICE enquanto instrumento democrático. Por exemplo, a ICE deveria poder ser utilizada para propor alterações aos Tratados da UE – um poder que ainda está fora do seu alcance, mas que poderia ter um impacto profundo no futuro da Europa. Os debates sobre a reforma dos Tratados estão a evoluir e reconhece-se cada vez mais que a UE precisa de um tratado capaz de responder aos desafios e oportunidades do nosso tempo. É, pois, mais importante do que nunca alargar a ICE para permitir aos cidadãos participar neste processo.

Permitir que a ICE seja uma fonte de inspiração para as políticas

Há que aumentar o nível de ambição da ICE. Uma ideia para aproveitar todo o seu potencial consiste em ter em consideração estas iniciativas, mesmo que não cumpram os critérios formais previstos para este instrumento. Nem todas as grandes ideias atingirão o limiar de um milhão de assinaturas, mas isso não significa que não vale a pena examiná-las. A realização de uma campanha de ICE não é fácil, especialmente porque implica esforços transnacionais, em diversas línguas e em vários países. Ainda assim, algumas das melhores ideias poderão não dispor dos recursos necessários para cumprir os elevados requisitos previstos para o êxito de uma ICE.

Por exemplo, a ICE Single Communication Tariff Act (Ato de Tarifa Única nas Telecomunicações), de 2012, não foi «bem-sucedida» segundo a definição normalizada, mas inspirou a política de «itinerância como em casa», que entrou em vigor cinco anos mais tarde e beneficia milhões de europeus em mobilidade, que podem agora usufruir da itinerância de dados além-fronteiras, sem tarifas. Tal demonstra que mesmo as ICE que não recolhem um número suficiente de assinaturas podem desencadear mudanças nas políticas. A UE deve estar aberta a examinar todas as ideias propostas pelos cidadãos, mesmo as que ficam aquém do limiar de um milhão de assinaturas, e a utilizá-las como fonte de inspiração para a futura legislação.

Principais conclusões

A ICE é um instrumento extremamente valioso para reforçar a democracia na Europa, sobretudo num momento em que os valores democráticos estão ameaçados em todo o mundo. Permite aos cidadãos apresentar as suas ideias na cena europeia, mobilizando o apoio do público e gerando um impacto significativo. Mais de dez anos após a sua introdução, chegou o momento de refletir sobre a forma de amplificar este instrumento único e criar uma ligação mais forte e direta entre os cidadãos e as instituições.

Com o apoio contínuo da sociedade civil, a ICE pode contribuir para a construção de uma União Europeia mais participativa e recetiva, que consolide a sua posição de líder mundial da democracia.

Daniela Vancic é responsável pelas políticas e sensibilização europeias na Democracy International, onde defende a democracia participativa e direta desde 2017. Com mais de uma década de experiência em processos de participação dos cidadãos, é uma perita reconhecida sobre a Iniciativa de Cidadania Europeia. Em 2022, coeditou o livro «Complementary Democracy: The Art of Deliberative Listening».

Iniciativa de Cidadania Europeia «My Voice, My Choice»: direito ao aborto defendido por mais de 1,2 milhões de pessoas

A Iniciativa de Cidadania Europeia «My Voice, My Choice» visa assegurar que todas as mulheres em toda a UE tenham acesso a um aborto seguro. A iniciativa, lançada em abril de 2024 e coordenada pelo Instituto 8 de Março, da Eslovénia, conseguiu recolher mais de um milhão de assinaturas muito antes do prazo previsto. O CESE Info falou com as organizadoras sobre a urgência da sua campanha no atual clima político, em que as mulheres estão a perder cada vez mais o controlo dos seus direitos reprodutivos.

Read more in all languages

A Iniciativa de Cidadania Europeia «My Voice, My Choice» visa assegurar que todas as mulheres em toda a UE tenham acesso a um aborto seguro. A iniciativa, lançada em abril de 2024 e coordenada pelo Instituto 8 de Março, da Eslovénia, conseguiu recolher mais de um milhão de assinaturas muito antes do prazo previsto. O CESE Info falou com as organizadoras sobre a urgência da sua campanha no atual clima político, em que as mulheres estão a perder cada vez mais o controlo dos seus direitos reprodutivos.

O que vos levou a lançar a iniciativa «My Voice, My Choice» e qual é o vosso objetivo último?

Começámos a pensar numa campanha que protegesse o direito ao aborto na Europa há quase três anos, quando foi alterada a jurisprudência baseada na decisão do caso Roe contra Wade nos Estados Unidos. As mulheres dos Estados Unidos perderam o seu direito constitucional de um dia para o outro e percebemos imediatamente que era preciso agir para proteger o direto ao aborto na Europa. Na Polónia, há mulheres que morrem nos hospitais devido a uma proibição quase total do aborto. As mulheres da Polónia realizaram as maiores manifestações de protesto pelo direito ao aborto dos últimos anos. Em Malta, as mulheres ainda podem ir parar à prisão se fizerem um aborto. Este ano, Giorgia Meloni autorizou grupos antiaborto a protestar dentro das clínicas de aborto e a assediar as mulheres que tentam fazer um aborto. Mais de 20 milhões de mulheres na Europa não têm acesso ao aborto.

É por este motivo que lançámos a campanha «My Voice, My Choice». Para elaborar a nossa proposta, trabalhámos com uma equipa de advogados internacionais e construímos uma rede sólida com organizações de toda a Europa.

O nosso objetivo é proteger o direito ao aborto a nível da UE e melhorar o acesso ao aborto para as mulheres que atualmente têm de viajar para o estrangeiro devido à proibição do aborto (como as mulheres em Malta e na Polónia) ou devido a uma elevada taxa de objeção de consciência (como se observa em Itália e na Croácia), ou simplesmente para quem não dispõe de meios económicos para fazer um aborto (em países como a Alemanha ou a Áustria).

A urgência da nossa campanha deve-se precisamente ao clima político atual. Temos de nos unir e mostrar que a maioria das pessoas defende o direito ao aborto e se opõe às restrições à liberdade reprodutiva. A maioria dos europeus apoia o direito ao aborto, e temos de juntar forças para proteger este direito.

Que medidas concretas solicitam à Comissão Europeia? Como se pode alcançar o resultado pretendido, tendo em conta que a saúde é da competência dos Estados-Membros?

Propomos que a Comissão Europeia crie um mecanismo financeiro, em que os Estados-Membros participem numa base voluntária, que cubra os custos dos procedimentos de aborto. Este mecanismo funcionaria de forma semelhante aos programas de prevenção e tratamento do cancro.

A ideia é que qualquer pessoa que tenha de viajar para outro país para fazer um aborto – devido a fortes restrições no seu próprio país ou a uma elevada taxa de objeção de consciência – não tenha de pagar o procedimento do seu próprio bolso. Atualmente, milhares de mulheres deslocam-se para outros países onde, por vezes, pagam milhares de euros pelo procedimento. Nem todas as pessoas dispõem de meios económicos para isso.

O aborto pode não ser da competência da Comissão Europeia, mas os programas financeiros relacionados com os cuidados de saúde são, e por esse motivo conseguimos registar a nossa iniciativa. 

Por que razão optaram por fazê-lo através de uma Iniciativa de Cidadania Europeia? Em que medida esperam uma resposta favorável da Comissão?

A nossa organização eslovena, o Instituto 8 de Março, que coordena a campanha «My Voice, My Choice», tem uma vasta experiência em matéria de iniciativas de cidadania nacionais, recolha de assinaturas e referendos. Graças ao mecanismo de iniciativa de cidadania nacional, já alterámos com êxito 15 leis na Eslovénia e ganhámos dois referendos nacionais. Por este motivo, queríamos encontrar um instrumento de democracia direta semelhante a nível da UE. Foi assim que nos familiarizámos com a Iniciativa de Cidadania Europeia. Pretendemos alcançar uma mudança direta que tenha um impacto duradouro nos direitos reprodutivos para todas as pessoas na Europa, e é por isso que decidimos começar a recolher assinaturas.

Ao longo da campanha, obtivemos o apoio político de todos os grupos políticos de centro-esquerda do Parlamento Europeu (PE), recebemos o apoio de políticos destacados a nível nacional em muitos Estados-Membros da UE e estabelecemos uma comunicação positiva e boas relações com os comissários europeus. Temos a esperança de que escutem as mais de 1,2 milhões de pessoas que apoiam a nossa iniciativa. 

Como conseguiram mobilizar pessoas em diferentes países da UE para apoiar a vossa iniciativa e ajudar a recolher assinaturas? Que canais utilizam para fazer passar a vossa mensagem?

Durante a campanha, construímos uma rede sólida de mais de 300 organizações e criámos uma bela comunidade de mais de 2 000 voluntários de toda a Europa. Quisemos estar presentes nas ruas das cidades, vilas e aldeias europeias, com os nossos voluntários prontos para recolher assinaturas. Conseguimos criar uma forte presença em linha no nosso Instagram, mas também utilizámos diferentes canais, como o Facebook, o TikTok, o YouTube, o BlueSky, o X e outras plataformas de redes sociais.

Ultrapassaram o limiar de um milhão de assinaturas exigido para uma Iniciativa de Cidadania Europeia bem-sucedida um mês antes do termo do prazo para a recolha de assinaturas. Que tipo de resposta e apoio, incluindo apoio financeiro, receberam até à data?

Conseguimos alcançar um milhão de assinaturas em dezembro, depois de as ter recolhido durante nove meses, e encerrámos a fase de recolha de assinaturas com 1,2 milhões de assinaturas antes do prazo.

Conseguimos recolher as assinaturas com a ajuda da nossa rede e da nossa comunidade, mas também nos candidatámos a diversas oportunidades de financiamento ao longo da nossa campanha, a fim de a manter ativa. Além disso, a iniciativa «My Voice, My Choice» ganhou o Prémio da Sociedade de Sociologia Eslovena e figura entre os finalistas do Prémio SozialMarie. Obtivemos também o apoio de todos os grupos políticos de centro-esquerda do Parlamento Europeu (PE) e o apoio individual de vários deputados ao PE, de Nicolae Ștefănuță, vice-presidente do PE, de Melanie Vogel, senadora francesa, de Nataša Pirc Musar, presidente da Eslovénia, e de Robert Golob, primeiro-ministro da Eslovénia. A campanha conta ainda com o apoio de muitos ativistas e personalidades de diferentes países da UE, como Luisa Neubauer, da Alemanha, e Alice Coffin, de França.

My Voice, My Choice é uma iniciativa que se está a converter num dos maiores movimentos feministas da Europa. Reúne mais de 300 organizações, inúmeros apoiantes e voluntários dedicados em toda a UE, que trabalham em conjunto para garantir um aborto seguro e acessível na União Europeia. 

«Se querem saber a verdade sobre a guerra, perguntem a quem sofre diariamente os seus efeitos»

Tatiana Povalyaeva representou, em conjunto com os seus alunos, a Ucrânia na edição deste ano de «A tua Europa, a tua voz».   Esta professora na escola secundária de Carcóvia deu a sua última aula presencial em fevereiro de 2022 e, desde então, leciona exclusivamente através da Internet. Fala sobre os desafios de ensinar numa cidade situada a apenas 40 quilómetros da fronteira russa, alvo de ataques constantes desde o início da guerra.

Read more in all languages

Tatiana Povalyaeva representou, em conjunto com os seus alunos, a Ucrânia na edição deste ano de «A tua Europa, a tua voz».   Esta professora na escola secundária de Carcóvia deu a sua última aula presencial em fevereiro de 2022 e, desde então, leciona exclusivamente através da Internet. Fala sobre os desafios de ensinar numa cidade situada a apenas 40 quilómetros da fronteira russa, alvo de ataques constantes desde o início da guerra.

Enquanto professora e educadora, de que forma é que a guerra afetou as suas aulas e o sistema de ensino em geral na Ucrânia?

Atualmente, em Carcóvia, a grande maioria das escolas adotou o ensino em linha, porque não existem abrigos suficientes para manter os nossos alunos em segurança durante as aulas presenciais. Há três anos que as aulas são dadas pela Internet, e a última vez que vi os meus alunos em sala de aula foi em 23 de fevereiro de 2022.  Muitos deles foram obrigados a abandonar o país e vivem em diversos países europeus. Enquanto professora, sinto uma enorme tristeza, pois tenho saudades dos meus alunos e sei que têm de enfrentar muitas dificuldades, como estudar em escolas europeias e ucranianas ao mesmo tempo, o que constitui uma grande sobrecarga. Os que ficaram na Ucrânia vivem em perigo constante. Ninguém merece isto.

Ter de dar aulas e prestar apoio aos alunos em tempo de guerra é uma situação completamente nova para nós. O sentimento de impotência, de não conseguir ajudar alguns dos meus alunos é uma das coisas mais difíceis. Os meus conhecimentos e a minha experiência por vezes não bastam para lidar com os problemas causados pela exposição dos adolescentes ao stress. Assisti a alterações de personalidade graves causadas pela perturbação de stress pós-traumático. Nesses casos, os alunos necessitam urgentemente de um médico e não tanto de um professor. É difícil ter de aceitar que não podemos poupá-los a estas provações. Ainda assim, estamos sempre junto deles, prontos a ajudá-los e a apoiá-los.

Outra dificuldade é manter-me resiliente para continuar a ser uma boa professora, não só no âmbito da minha disciplina mas também noutros aspetos da vida dos alunos. Uma professora combativa e resiliente é uma melhor professora, mas a questão está em saber como continuar a ser forte. Os professores que vivem e trabalham em tempos de guerra também precisam de ser apoiados, pois os jovens dos quais cuidamos serão o nosso futuro. Quanto mais um professor for capaz de manter o seu ânimo, mais capaz será de apoiar os seus alunos.

Por que razão considera importante incentivar os alunos a interessarem-se pela política e pela vida cívica e a participarem em eventos internacionais como este?

Incentivar os alunos a contribuir ativamente para a vida coletiva é uma das tarefas essenciais dos professores. Inspirá-los a participar de forma continuada na vida política é ainda mais importante, uma vez que as decisões políticas têm um grande impacto na vida das pessoas. A participação política constitui uma oportunidade única para os alunos contribuírem com ideias e soluções para muitos dos problemas atuais.

Ao participarem em eventos internacionais como «A tua Europa, a tua Voz» conhecem pessoas com os mesmos interesses, com quem podem partilhar experiências de vida e ideias e trabalhar em conjunto sobre as melhores soluções. O encontro entre pares permite que os alunos reflitam sobre o ponto em que se encontram na sua vida, os seus planos, objetivos e perspetivas, e a eventual necessidade de um caminho de crescimento pessoal.

Enquanto professora na Ucrânia, o que gostaria de dizer aos outros professores e escolas do seu país?

Gostaria de partilhar com os meus colegas e os seus alunos três pontos fundamentais. Em primeiro lugar, se querem saber a verdade sobre o que se passa na guerra, perguntem a quem sofre diariamente os seus efeitos.

Em segundo lugar, é indispensável que se mantenham unidos para poderem ajudar os outros e estar preparados para evitar catástrofes. Além disso, é primordial que tenham consciência da importância de pertencer a uma comunidade forte, com valores morais, interesses e perspetivas comuns para o futuro.

O terceiro e último ponto, e o mais essencial, do qual dependem todos os outros, é que estamos vivos. Vivemos a nossa vida, vamos à luta e obtemos resultados. Esforçamo-nos por ser melhores pessoas, confiamos no futuro e fazemos o que está ao nosso alcance para mostrar que, mesmo nos tempos mais difíceis, é possível ter esperança e vontade de viver. Respeitamos todos aqueles que sacrificam as suas vidas pelo futuro de uma Ucrânia independente e apoiamo-los tanto quanto possível. Estamos gratos a todas as pessoas que nos ajudam.

Os estudantes ucranianos participam em numerosos eventos e competições nacionais e internacionais (estiveram mesmo presentes nos Jogos Olímpicos), nos quais obtêm ótimos resultados e reconhecimento mundial. Ao mesmo tempo, tanto eles como os seus professores têm de lutar pela sobrevivência e sanidade mental, prosseguindo o seu percurso intelectual em condições de vida extremamente difíceis, formando-se graças ao contacto com o resto da Europa.

Tatiana Povalyaeva é professora de inglês no Liceu 99 de Carcóvia, na Ucrânia, há quase 26 anos. Participou, juntamente com os seus alunos, na edição deste ano de «A tua Europa, a tua voz». 

Editores

Ewa Haczyk-Plumley (editor-in-chief)
Laura Lui (ll)

Colaboraram nesta edição

Chrysanthi Kokkini (ck)
Claudia-Paige Watson Brown (cpwb)
Daniela Vincenti (dv)
Dimitra Panagiotou (dm)
Ewa Haczyk-Plumley (ehp)
Giorgia Battiato (gb)
Jasmin Kloetzing (jk)
Joanna Harnett (jh)
Katerina Serifi (ks)
Laura Lui (ll)
Leonard Mallett (lm)
Marco Pezzani (mp)
Margarita Gavanas (mg)
Margarida Reis (mr)
Millie Tsoumani (mt)
Pablo Ribera Paya (prp)
Samantha Falciatori (sf)
Parminder Shah (sp)
Thomas Kersten (tk)
Veronika Kadlecová (vk)

Coordination

Agata Berdys (ab)
Giorgia Battiato (gb)

 

 

Endereço

European Economic and Social Committee
Jacques Delors Building,
99 Rue Belliard,
B-1040 Brussels, Belgium
Tel. (+32 2) 546.94.76
Email: eescinfo@eesc.europa.eu

EESC info is published nine times a year during EESC plenary sessions. EESC info is available in 24 languages
EESC info is not an official record of the EESC’s proceedings; for this, please refer to the Official Journal of the European Union or to the Committee’s other publications.
Reproduction permitted if EESC info is mentioned as the source and a link  is sent to the editor.
 

April 2025
4/25

Follow us

  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn
  • Instagram