Há muito a apontar ao estado da democracia, em geral, e à Iniciativa de Cidadania Europeia (ICE), em particular.

Há muito a apontar ao estado da democracia, em geral, e à Iniciativa de Cidadania Europeia (ICE), em particular.

De acordo com o mais recente relatório sobre a democracia mundial, apresentado em 7 de março pelo instituto «Varieties of Democracy», a percentagem de pessoas que vivem em democracia diminuiu para os níveis de há quase 40 anos. E, embora este ano haja mais gente em todo o mundo elegível para votar, um grande número de países onde se realizam eleições está a tornar-se mais autocrático.

O descontentamento com o estado das coisas foi também palpável na primeira edição da Semana da Sociedade Civil, organizada pelo Comité Económico e Social Europeu no início de março, durante a qual se apontou o dedo à Iniciativa de Cidadania Europeia, o primeiro instrumento de democracia direta transfronteiriça no mundo. «Demasiado complicada», «pouco atrativa», «não inspira muita confiança», «ineficiente» e «pouco conhecida» foram apenas algumas das críticas pouco abonatórias tecidas pelas partes interessadas da sociedade civil, pelos meios de comunicação social, pelo meio académico e pela administração da ICE.

Estas avaliações muito negativas são lamentavelmente exatas, mas também demasiado contidas e moderadas na sua apreciação. A democracia deve ser uma realidade nos quatro cantos do mundo. E para tal, nós, enquanto cidadãos e eleitores elegíveis neste planeta, devemos procurar alcançar mais do que aquilo de que dispomos atualmente. 

Não nos podemos acanhar perante o medo, os ditadores de hoje e a sua infame clique. Temos de dar passos muito mais ambiciosos. Melhorar a Iniciativa de Cidadania Europeia (ICE) constituiria um avanço nesse sentido.

Mas o que é exatamente a ICE? Três coisas. Um direito, um mecanismo e uma ferramenta sem paralelo na história e no mundo. Trata-se de um instrumento complexo, concebido de forma abrangente, digital, que promove a democracia direta, tem um caráter transnacional, dispõe de uma infraestrutura de apoio e é muito utilizado. 

Entre 2012 e os dias de hoje, a ICE foi concebida, implementada, utilizada e melhorada, o que a torna uma prova viva de que o espaço democrático pode ser alargado e consolidado, mesmo nas circunstâncias mais difíceis.

No próximo ano, 13 anos volvidos após os seus primeiros passos, espera-se que esta criança apaparicada se torne um adolescente obstinado, capaz de mostrar à Europa e ao mundo aquilo de que é capaz. E precisamos dessa força renovada e irreverente para revitalizar de forma decisiva a mentalidade avessa à mudança dos Estados-nação e as estruturas burocratizadas da União Europeia. 

Sejamos claros – não precisamos de reinventar constante e incessantemente as formas democráticas da coabitação, ou, como é vulgo dizer-se, «de inovar». Em vez disso, devemos desenvolver a ICE, a fim de assegurar que, até ao final desta década, esta atinge a sua maturidade quando perfizer 16, ou, no máximo, 18 anos de idade.  

O que significa isto? Até 2028 ou 2030, impõem-se duas alterações importantes. Em primeiro lugar, cumpre assegurar que os poderes da ICE em matéria de definição da agenda da UE são iguais aos do Parlamento Europeu. Por outras palavras, os europeus devem poder propor legislação e outras ações políticas da mesma forma que os deputados eleitos ao Parlamento Europeu.

Em segundo lugar, os cidadãos da UE devem dispor, até ao final desta década, do poder não só de iniciativa legislativa, mas também de submeter questões de fundo à votação popular em toda a UE (através dos comummente designados referendos). O referendo pan-europeu não é uma ideia nova, mas é agora uma ideia suficientemente madura, graças ao nascimento e aos primeiros anos de vida da ICE.

Se conseguirmos construir este tipo de futuro em torno da ICE, os cidadãos de amanhã olharão para trás e verão neste instrumento e neste período um marco que produziu uma das mais surpreendentes conquistas democráticas desde o sufrágio universal e igualitário no século XX.

O projeto eslovaco «Crazy? So what!» [Loucura? Nada demais!], gerido pela organização Integra, reúne jovens alunos e pessoas que já se debateram com problemas de saúde mental. Ao longo de um dia completo de sensibilização, os alunos ouvem, em primeira mão, histórias de superação de crises de saúde mental e ficam a saber como obter ajuda. A diretora da Integra, Jana Hurova, explicou-nos que o projeto ajuda a destigmatizar as pessoas com problemas de saúde mental e proporciona aos jovens uma preciosa fonte de esperança.

O projeto eslovaco «Crazy? So what!» [Loucura? Nada demais!], gerido pela organização Integra, reúne jovens alunos e pessoas que já se debateram com problemas de saúde mental. Ao longo de um dia completo de sensibilização, os alunos ouvem, em primeira mão, histórias de superação de crises de saúde mental e ficam a saber como obter ajuda. A diretora da Integra, Jana Hurova, explicou-nos que o projeto ajuda a destigmatizar as pessoas com problemas de saúde mental e proporciona aos jovens uma preciosa fonte de esperança.

O que a levou a lançar o seu projeto?

A nossa organização apoia, há muitos anos, pessoas com problemas de saúde mental que, devido a essa situação, perderam o emprego, a casa, os amigos e, por vezes, também as suas famílias. Viram o seu mundo ficar de pernas para o ar. Criámos os primeiros serviços comunitários de saúde mental da Eslováquia há quase 30 anos. O objetivo foi garantir que estas pessoas, depois de receberem tratamento num hospital psiquiátrico, pudessem ter apoio e regressar à vida que tinham antes de ficarem doentes. Apoiámos a criação de organizações de doentes na Eslováquia e executámos uma série de programas para destigmatizar as doenças mentais. Damos assistência a pessoas com problemas de saúde mental graves, especialmente esquizofrenia, muitas das quais já conseguiram reintegrar-se e dar sentido às suas vidas.

Uma vez que, desde o início, todas as nossas atividades são realizadas de forma pouco convencional, em parceria com os nossos utentes para identificar melhor as suas necessidades, aplicámos uma abordagem semelhante no programa «Crazy? So what!». Muitos dos nossos utentes descobriram um sentido de missão ao reunir-se com jovens e, com base na sua experiência pessoal, ao falar sobre o que lhes faltou quando também eram jovens e o que mais tarde desencadeou os seus problemas de saúde mental.

Vemos uma necessidade crescente de salientar a importância da saúde mental. Saber como gerir uma crise pessoal é uma grande vantagem.

Lançámos o programa «Crazy? So what!» na Eslováquia em 2005, juntamente com parceiros da Alemanha e da República Checa. No entanto, só recentemente conseguimos colocar o programa numa base mais estável e expandi-lo. Temos formação enquanto orientadores, formamos novas equipas e visitamos novas escolas.

Como foi recebido o vosso projeto? Tiveram alguma reação das pessoas que ajudaram?  (Pode dar um exemplo, se tiver?)

É sempre muito marcante para os jovens a oportunidade de encontrarem pessoas que ultrapassaram uma crise de saúde mental e poderem perguntar-lhes o que quer que seja. Isso mostra-lhes que, se eles próprios tiverem problemas, é sempre possível obter ajuda. O facto de ser organizado um dia completo de sensibilização e de a comunicação ser feita de igual para igual faz com que os participantes fiquem sempre com uma impressão positiva.

As pessoas que já tiveram problemas de saúde mental podem encorajar os jovens a fazer algo em relação aos seus próprios problemas. Em quase todas as turmas há alunos que enfrentam problemas. Dar-lhes uma fonte de esperança é algo de inestimável. As pessoas partilham as suas próprias histórias também para se sentirem melhor. Cada uma decide quanto quer revelar sobre a sua vida aos alunos. Desta forma, sentem que têm valor e que os outros as compreendem.

Recebemos muitos comentários, por exemplo, de alunos que afirmam não terem, normalmente, a oportunidade de falar com pessoas com problemas de saúde mental, ou que agora vêm a necessidade de aprender a aceitar essas pessoas, não as condenando por serem diferentes.

Recebemos igualmente reações de pessoas com historial de problemas de saúde mental que participam no programa. Uma disse-nos:

«O programa dá-me coragem para manter a cabeça erguida. Quero finalmente viver! Falar com os alunos é difícil, mas recompensador. São muito abertos e praticamente não receiam o contacto social. O mais maravilhoso para mim é o facto de mostrarem que muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa, que a imagem que se tem dos "doidos" não é verdadeira. É excelente conseguir ajudar as pessoas a falar, enfim, abertamente sobre os problemas de saúde mental, para que ninguém sinta que tem de se envergonhar ou de se esconder.»

O que nos move são os jovens. Após cada um destes dias de sensibilização, os jovens falam sobre a importância que o programa «Crazy? So what!» teve para eles e referem que o programa deve continuar para que todos os jovens na Eslováquia possam aprender a dar valor à sua saúde mental.

Já estão a planear novos projetos?

Gostaríamos que todos os jovens pudessem beneficiar desta forma de educação, alargando o programa a outras regiões da Eslováquia. Já existe na Alemanha (onde foi criado inicialmente), na Eslováquia, na República Checa e na Áustria. Este ano, formámos também as primeiras equipas na Ucrânia.

Na sua opinião, qual é a importância de falar abertamente sobre problemas de saúde mental? Que mensagem transmitem com o vosso projeto?

Queremos transmitir a mensagem de que ter problemas de saúde mental não é motivo de vergonha. Vergonhoso é não fazer nada para promover a nossa própria saúde. Porque sem saúde mental não há saúde.

O principal objetivo do programa «Crazy? So what!» é destacar oportunamente a importância da saúde mental e, ao mesmo tempo, promover a compreensão das pessoas com problemas de saúde mental.

Pensamos que é muito melhor prevenir do que remediar. E também é mais eficaz. Damos coragem e motivação e somos otimistas. É sempre possível encontrar ajuda. Às vezes, basta ter alguém com quem falar. Lutar pelos nossos sonhos nunca é fácil, mas vale sempre a pena.

Os factos e dados sobre a saúde mental na UE não apresentam uma imagem tranquilizadora, mas antes suscitam um apelo à ação. O Comité Económico e Social Europeu (CESE) defende medidas mais fortes para promover a saúde mental a nível nacional e da UE. Apelou igualmente à adoção de legislação vinculativa para prevenir os riscos psicossociais no local de trabalho. Ao dedicar o Prémio para a Sociedade Civil à saúde mental, presta homenagem aos esforços contínuos da sociedade civil para melhorar o bem-estar dos europeus.

Os factos e dados sobre a saúde mental na UE não apresentam uma imagem tranquilizadora, mas antes suscitam um apelo à ação. O CESE defende medidas mais fortes para promover a saúde mental a nível nacional e da UE. Apelou igualmente à adoção de legislação vinculativa para prevenir os riscos psicossociais no local de trabalho. Ao dedicar o Prémio para a Sociedade Civil à saúde mental, presta homenagem aos esforços contínuos da sociedade civil para melhorar o bem-estar dos europeus.

  1. O CESE decidiu dedicar o seu Prémio para a Sociedade Civil, já emblemático, à saúde mental, na sequência de informações de que, após a pandemia de COVID-19, as perturbações da saúde mental, designadamente a ansiedade e a depressão, aumentaram em toda a Europa. De acordo com a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económicos (OCDE), a percentagem de jovens com sintomas de ansiedade mais do que duplicou em vários países europeus. A pandemia também reduziu a idade de início dos distúrbios alimentares, em especial entre os adolescentes. Antes da pandemia de COVID-19, os problemas de saúde mental já afetavam, pelo menos, 84 milhões de pessoas – cerca de uma em cada seis – em toda a UE.
  2. Cada ano, cerca de 4% das mortes na UE são atribuídas a problemas de saúde mental e a perturbações comportamentais. Os problemas de saúde mental têm também um enorme impacto económico, uma vez que os custos diretos e indiretos representam cerca de 4% do PIB. Mais de um terço destes custos resulta de taxas de emprego mais baixas e de uma diminuição da produtividade no trabalho.
  3. Em 2020, de acordo com o Eurostat, 44,6% da população empregada com idades compreendidas entre os 15 e os 64 anos em toda a UE declarou enfrentar fatores de risco para o seu bem-estar mental no trabalho. A sobrecarga de trabalho e a pressão de tempo foram os fatores de risco para o bem-estar mental no trabalho mais frequentemente mencionados, segundo quase um quinto das pessoas empregadas na UE.
  4. O bem-estar mental passou para o topo da agenda política da UE. Consequentemente, em junho de 2023, a Comissão Europeia adotou uma abordagem abrangente da saúde mental. Com financiamento na ordem dos 1,23 mil milhões de euros, esta nova abordagem visa promover a saúde mental em todas as políticas da UE e centra-se em três princípios orientadores: uma prevenção adequada e eficaz, o acesso a tratamentos e cuidados de saúde mental de elevada qualidade e a preços comportáveis e a reintegração na sociedade após a recuperação. A saúde mental é também uma prioridade política do CESE e está no cerne do seu trabalho.
  5. O CESE recebeu 105 candidaturas de toda a UE, abrangendo uma vasta gama de temas, desde projetos de prevenção de riscos psicossociais no local de trabalho ou de resolução de questões como o abuso de substâncias e a ciberdependência até à luta contra o estigma em torno da saúde mental e à promoção da assistência de base comunitária. O CESE espera que, ao homenagear e destacar estes esforços essenciais não estatais no apoio à saúde mental, possa também inspirar outros a fazer o mesmo. (sg)

O Prémio CESE para a Sociedade Civil distingue projetos sem fins lucrativos realizados por indivíduos, organizações da sociedade civil e empresas. Todos os anos é escolhido um tema diferente, que abrange uma área importante das atividades do CESE. O vencedor da 14.ª edição do Prémio para a Sociedade Civil, dedicada à saúde mental, é a fundação irlandesa Third Age, com o seu programa de ação social «AgeWell» [envelhecer bem], que combate a solidão na velhice.

O Prémio CESE para a Sociedade Civil distingue projetos sem fins lucrativos realizados por indivíduos, organizações da sociedade civil e empresas. Todos os anos é escolhido um tema diferente, que abrange uma área importante das atividades do CESE. O vencedor da 14.ª edição do Prémio para a Sociedade Civil, dedicada à saúde mental, é a fundação irlandesa Third Age, com o seu programa de ação social «AgeWell» [envelhecer bem], que combate a solidão na velhice.

Em 7 de março, o Comité Económico e Social Europeu (CESE) premiou cinco organizações sem fins lucrativos pelo seu contributo excecional para a luta contra as doenças mentais, que aumentaram drasticamente na UE.

O prémio de 50 000 euros foi repartido pelos cinco projetos vencedores.

A fundação irlandesa de beneficência Third Age arrecadou o primeiro prémio, no valor de 14 000 euros.

Os restantes quatro finalistas receberam 9 000 euros cada e ficaram classificados como segue:

  • 2.º lugar: Associação Pro Lapinlahti, FINLÂNDIA, pelo seu centro comunitário Lapinlahden Lähde;
  • 3.º lugar: Integra, ESLOVÁQUIA, pela sua iniciativa «Crazy? So what!» [Loucura? Nada demais!];
  • 4.º lugar: Fundação Lilinkoti, FINLÂNDIA, pelos seus jogos «The World of Recovery» [O mundo da recuperação];
  • 5.º lugar: Organização Animenta, ITÁLIA, pelo seu projeto «Telling Stories for Good» [Contar histórias para sensibilizar].

VENCEDOR DO PRIMEIRO PRÉMIO

Com o seu programa de ação social «AgeWell», a fundação irlandesa de beneficência Third Age ajuda os idosos isolados, frágeis e vulneráveis. Oferece um serviço único, de índole comunitária, em que pessoas com mais de 50 anos prestam apoio a idosos necessitados e em risco. Através de visitas ao domicílio e de um questionário sobre saúde mental integrado numa aplicação de telemóvel, o programa «AgeWell» proporciona companhia e apoio emocional e identifica problemas de saúde numa fase precoce.

OS OUTROS PROJETOS VENCEDORES

O segundo lugar foi atribuído à associação finlandesa Pro Lapinlahti e ao seu centro comunitário Lapinlahden Lähde, que significa «A primavera de Lapinlahti». O centro, resultado da renovação do hospital de Lapinlahti, em Helsínquia, organiza vários seminários e eventos relacionados com a literacia no domínio da saúde mental, que contam anualmente com a participação de 50 000 pessoas. Declarado «zona livre de diagnóstico», é um lugar em que cada pessoa pode exprimir-se livremente, sem risco de lhe ser atribuído um rótulo, oferecendo autonomia em vez de paternalismo.

Em terceiro lugar, a organização eslovaca Integra, com a sua iniciativa «Crazy? So what!», desconstrói os estereótipos ao promover um entendimento compassivo da saúde mental entre os jovens. Fornece informações em primeira mão sobre o que é viver com problemas de saúde mental e sobre o trajeto de recuperação.

O vencedor do quarto prémio, a fundação finlandesa Lilinkoti, tem por missão apoiar a saúde mental através dos seus jogos inovadores e criativos intitulados «The World of Recovery». Os jogos promovem a recuperação da saúde mental através de metas que inspiram uma autoimagem saudável, a autonomia pessoal e uma vida ativa e preenchida. Um deles é um jogo digital não violento e o outro é um jogo de tabuleiro para interpretação de papéis, já premiado. Estão disponíveis gratuitamente e destinam-se a pessoas com problemas de saúde mental e a quem se encontre a recuperar do abuso de substâncias, mas também aos profissionais do ramo.

O projeto «Telling Stories for Good» arrecadou o quinto lugar para a organização italiana sem fins lucrativos Animenta. Através deste projeto, a Animenta reescreve narrativas estereotipadas sobre distúrbios alimentares, que afetam mais de quatro milhões de pessoas só em Itália, das quais dois milhões são adolescentes. Os seus programas de prevenção e sensibilização são levados a cabo por profissionais voluntários, tanto em ambiente digital como em escolas por toda a Itália.

O CESE lançou o prémio deste ano em julho de 2023. Ao dedicar esta edição à saúde mental, o CESE pretende reconhecer o papel vital da sociedade civil no tratamento e na prevenção dos problemas de saúde mental. Os vencedores foram selecionados de entre mais de 100 candidaturas de 23 Estados-Membros.

Em anos anteriores, o prémio abordou temas como a juventude, a ajuda à Ucrânia, a ação climática, a igualdade de género e a capacitação das mulheres ou a migração. Em 2020, o CESE substituiu excecionalmente o Prémio CESE para a Sociedade Civil pelo Prémio CESE para a Solidariedade Civil, dedicado à luta contra a COVID-19. (ll)

O Dia da Iniciativa de Cidadania Europeia (ICE) 2024 chamou a atenção para as potencialidades e limitações da ICE. Os debates celebraram os êxitos das iniciativas anteriores, que sensibilizaram para temas importantes e suscitaram a discussão pública, mas também evidenciaram a frustração com a necessidade de uma maior capacidade de resposta e de um melhor seguimento por parte das instituições da UE.

O Dia da Iniciativa de Cidadania Europeia (ICE) 2024 chamou a atenção para as potencialidades e limitações da ICE. Os debates celebraram os êxitos das iniciativas anteriores, que sensibilizaram para temas importantes e suscitaram a discussão pública, mas também evidenciaram a frustração com a necessidade de uma maior capacidade de resposta e de um melhor seguimento por parte das instituições da UE.

Principais conclusões do Dia da ICE:

  • Ir além das sugestões.  As ICE bem-sucedidas devem resultar automaticamente em ações substanciais da Comissão, que se traduzam em respostas concretas e, se for caso disso, em propostas legislativas. Dessa forma, assegurar-se-ia a influência direta das ICE no direito da UE, e um diálogo mais profícuo entre os cidadãos e as instituições.
  • Reforço das parcerias. A colaboração é fundamental. Para amplificar as vozes dos cidadãos é necessário estabelecer uma colaboração estratégica entre os organizadores das ICE, a sociedade civil, os meios de comunicação social e os parceiros públicos.
  • Melhoria contínua. O quadro da ICE está em constante evolução. Tirando partido das boas práticas e promovendo a partilha de conhecimentos entre as partes interessadas, podemos reforçar o processo da ICE e permitir a um número ainda maior de cidadãos participar ativamente.

A ICE permite aos cidadãos solicitar à UE que tome medidas e proponha uma nova lei sobre uma questão específica. Assim que uma iniciativa atinge um milhão de assinaturas, a Comissão decide das ações a tomar. (gb)

Em 2013, o hospital de Lapinlahti, a primeira unidade hospitalar psiquiátrica da Finlândia e emblema dos cuidados de saúde mental no país, com uma história de 170 anos, estava vazio e votado ao esquecimento. Até que um grupo de ativistas da saúde mental decidiu meter mãos à obra com o projeto de transformar aquele pedaço de património degradado num centro aberto para a saúde mental, a cultura e as artes. Siru Valleala, representante da Pro Lapinlahti, a associação que gere o centro, partilhou connosco que Lapinlahden Lähde é agora, antes de mais, um espaço inclusivo em que o estigma e os preconceitos ficam à porta e onde todos se sentem bem-vindos.

Em 2013, o hospital de Lapinlahti, a primeira unidade hospitalar psiquiátrica da Finlândia e emblema dos cuidados de saúde mental no país, com uma história de 170 anos, estava vazio e votado ao esquecimento. Até que um grupo de ativistas da saúde mental decidiu meter mãos à obra com o projeto de transformar aquele pedaço de património degradado num centro aberto para a saúde mental, a cultura e as artes. Siru Valleala, representante da Pro Lapinlahti, a associação que gere o centro, partilhou connosco que Lapinlahden Lähde é agora, antes de mais, um espaço inclusivo em que o estigma e os preconceitos ficam à porta e onde todos se sentem bem-vindos.

Como surgiu a ideia de lançar este projeto?

Em 2013, o hospital de Lapinlahti, a primeira unidade hospitalar psiquiátrica da Finlândia, construída em 1841, estava vazio e o município de Helsínquia não tinha planos para o seu futuro. Rico em património e rodeado por magníficos espaços verdes, o sítio histórico foi esquecido e foi-se degradando. Preocupado com esta situação trágica, um grupo de ativistas da saúde mental começou a partilhar a sua visão e os seus sonhos para o lugar – transformar o hospital de Lapinlahti e os seus espaços verdes num centro aberto para a saúde mental, a cultura e as artes.

Foi o início do que hoje é conhecido por Lapinlahden Lähde, «a primavera de Lapinlahti».  As atividades são inspiradas pela história e arquitetura da zona no coração da baía de Lapinlahti e por 170 anos de trabalho no domínio da saúde mental. A ênfase foi transferida do tratamento da doença para a promoção do bem-estar em todos os quadrantes da vida. Lapinlahden Lähde é agora um exemplo vivo da luta contra o estigma e de uma mudança de paradigma apostada em promover um olhar positivo.

No passado, o hospital de Lapinlahti foi a instituição de referência no domínio da psiquiatria e um local onde os cuidados de saúde mental estavam em permanente evolução. Porém, os ativistas da saúde mental que trabalhavam para a Associação de Saúde Mental Pro Lapinlahti, fundada em 1988 – quando Lapinlahti ainda era um hospital em funcionamento – pretendiam criar algo diferente: um centro inovador para promover a saúde mental à luz dos conhecimentos disponíveis no século XXI, um lugar que incorporasse uma verdadeira mudança de paradigma assente não no tratamento das doenças mentais, mas na promoção do bem-estar mental.

Como foi recebido o projeto? Tiveram alguma reação das pessoas que ajudaram?  Tem algum exemplo que possa partilhar?

No início, foi um desafio as pessoas atravessarem os portões. A zona esteve encerrada ao público durante 170 anos enquanto funcionou como hospital psiquiátrico e, apesar do interesse e da curiosidade, foi difícil convencer as pessoas de que eram bem-vindas e podiam vir conhecer o espaço. A pouco e pouco, começaram a juntar-se às atividades e aos eventos e ajudaram entusiasticamente a desenvolvê-los, voluntariando-se e partilhando ideias. Artistas e intérpretes trouxeram as suas obras de arte e eventos culturais para Lapinlahden Lähde e, hoje, realizamos mais de 400 eventos e 50 a 60 exposições de arte por ano. Lapinlahti tornou-se um espaço vivo e aberto para todos em Helsínquia, promovendo o bem-estar mental e combatendo a solidão e a exclusão social todos os dias do ano.

«Quando me juntei a esta iniciativa, senti que era verdadeiramente maravilhoso poder estar aqui para ajudar a dar uma nova vida a este espaço, um novo fôlego que apague o peso do passado» (Cresswell-Smith et al., 2022).

O hospital de Lapinlahti é hoje considerado um lugar muito seguro e inclusivo. Um lugar onde cada pessoa se sente sempre bem-vinda, independentemente do humor do dia ou da situação de vida que atravessa. O facto de Lapinlahti ter sido um hospital psiquiátrico tem o seu significado. Permite-nos ser vulneráveis. Sentimos que há uma atitude de abertura face às dificuldades de saúde mental que é absolutamente única. Contamos com um forte sentimento de comunidade e todos podem explorar com segurança os seus próprios pontos fortes. O estigma e a discriminação ficam à porta. Em Lapinlahden Lähde orgulhamo-nos de incluir toda a gente.

As atividades de Lapinlahti são desenvolvidas em cooperação com o proprietário, o município de Helsínquia, e este trabalho de desenvolvimento tem sido o ponto de partida para toda a operação. Estão atualmente a ser tomadas decisões políticas de grande alcance sobre o futuro regime de propriedade da zona e esperamos que o êxito das atuais atividades seja plenamente tido em conta.

De que modo tencionam aplicar este financiamento específico para prestar mais ajuda à comunidade? Já estão a planear novos projetos?

Continuaremos a desenvolver as nossas atividades para que mais pessoas possam participar e beneficiar delas. Lançámos recentemente um projeto estimulante para as pessoas que estão a recuperar de doenças mentais, que visa reforçar o acesso, e até mesmo o direito, às atividades culturais. Mais especificamente, pretendemos ajudar as pessoas a encontrarem a sua própria forma de expressão cultural e a descobrirem o que faz sentido para elas do ponto de vista da cultura do bem-estar mental e das artes. É nisto que utilizaremos o generoso prémio que nos foi atribuído.

Na sua opinião, que tipo de ação coletiva é necessária para reduzir o estigma que frequentemente acompanha os problemas de saúde mental? A arte pode desempenhar um papel na capacitação das pessoas com problemas de saúde mental?      

Temos de oferecer atividades em que pessoas com experiências e origens diferentes possam reunir-se. Desenhar atividades que não se centrem no estado de saúde ou nas circunstâncias de vida ajuda a proporcionar encontros humanos únicos e a estabelecer laços valiosos entre pessoas de diferentes origens. Abordar a saúde mental de diferentes formas, por exemplo, através das artes, promoveu a consciência e a compreensão. A arte tem o dom de aproximar as pessoas e oferece novas formas de lidar com questões por vezes dolorosas. A arte canaliza a expressão e abre um espaço para as pessoas serem vistas e ouvidas. O poder de ser ouvido pode mudar a vida de uma pessoa e a sua perceção de si própria.

QFP: Alterações dos montantes para determinados programas e fundos

Document Type
PAC

Iniciativa EuroHPC

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PAC

Concluindo que havia ainda margem para inovação e para novas abordagens em matéria de saúde mental, a Fundação Lilinkoti, na Finlândia, concebeu um jogo, intitulado «The World of Recovery (TWoR)» [O mundo da recuperação], em dois formatos: um jogo digital e um jogo de tabuleiro. Ambos os jogos de simulação requerem que os jogadores vistam a pele de uma determinada personagem. Os jogos, que se passam num mundo futurístico de esperança, promovem o percurso de recuperação do jogador, que tanto pode ser uma pessoa a recuperar de problemas de saúde mental ou de consumo abusivo de substâncias, como um profissional. Reetta Sedergre e Venla Leimu, representantes da Fundação Lilinkoti, afirmaram que os jogos têm um enorme potencial para melhorar a saúde mental, mas que este potencial continua, em grande medida, por explorar. 

Concluindo que havia ainda margem para inovação e para novas abordagens em matéria de saúde mental, a Fundação Lilinkoti, na Finlândia, concebeu um jogo, intitulado «The World of Recovery (TWoR)» [O mundo da recuperação], em dois formatos: um jogo digital e um jogo de tabuleiro. Ambos os jogos de simulação requerem que os jogadores vistam a pele de uma determinada personagem. Os jogos, que se passam num mundo futurístico de esperança, promovem o percurso de recuperação do jogador, que tanto pode ser uma pessoa a recuperar de problemas de saúde mental ou de consumo abusivo de substâncias, como um profissional. Reetta Sedergre e Venla Leimu, representantes da Fundação Lilinkoti, afirmaram que os jogos têm um enorme potencial para melhorar a saúde mental, mas que este potencial continua, em grande medida, por explorar. 

Como surgiu a ideia de lançar este projeto? 

Há alguns anos, nós, na Fundação Lilinkoti, sentimos que havia ainda muita margem para inovação e para novas abordagens no domínio da recuperação em saúde mental. O recurso, cada vez mais frequente, a terapias centradas na recuperação pessoal constituiu um enorme passo em frente neste campo, mas faltavam instrumentos modernos e inovadores para as aplicar. A nossa organização trabalhou com pessoas que estavam há décadas a recuperar de problemas de saúde mental e, então, tivemos um sonho: e se houvesse uma forma moderna de melhorar a saúde mental – um jogo digital em que o jogador veste a pele de uma personagem? 

O vosso projeto foi bem recebido? Tiveram alguma reação das pessoas a quem prestaram ajuda?   

Os jogos «The World of Recovery» foram desenvolvidos conjuntamente por pessoas que estavam a recuperar de problemas de saúde mental e por profissionais, o que nos permitiu obter ao longo de todo o processo de conceção do jogo reações que nos foram orientando para o resultado final. 

Na sua esmagadora maioria, as reações dos jogadores de ambos os jogos, recebidas de forma anónima e pessoal, foram positivas. Por exemplo, mais de 90% dos respondentes afirmaram que o jogo digital tinha contribuído para aumentar o seu bem-estar e os tinha encorajado a serem mais ativos, ao passo que o jogo de tabuleiro os tinha ajudado a desenvolver competências sociais.  

Talvez as melhores reações tenham sido as gargalhadas e as conversas sobre sentimentos, desafios e pontos fortes, bem como sobre a forma como estes jogos tinham reunido os jogadores, independentemente dos seus papéis e antecedentes. 

Que conselho dariam a outras organizações no que toca a obter resultados com atividades e programas deste tipo? 

O facto de estar na linha da frente da inovação traz muitos benefícios. É um trabalho verdadeiramente inspirador e tem-se o sentimento de estar a fazer algo novo. Agarrem-se a isso, não tentem encaixar-se em padrões. Sigam o vosso instinto, tenham curiosidade em ouvir as opiniões de todos. Acima de tudo, envolvam no processo de conceção pessoas que estão a recuperar e «peritos pela experiência». Se estão a conceber jogos, é preciso estarem preparados para fazer face a muitos preconceitos por parte de profissionais. É comum que, no domínio da saúde mental, os jogos em geral sejam considerados como causadores de dependência ou nocivos. Não se deixem desencorajar! Sejam ousados, sejam criativos e atrevam-se a sonhar! 

Qual é o potencial dos jogos de computador e dos jogos de vídeo para melhorar a saúde mental? Na sua opinião, estes jogos deveriam ser mais utilizados no tratamento de pessoas que sofrem de problemas de saúde mental? 

O potencial dos jogos de computador e dos jogos de vídeo – e especificamente dos jogos de simulação – para melhorar a saúde mental é enorme. Dado o número assustador de pessoas que sofrem de problemas de saúde mental, precisamos de formas novas e versáteis para melhorar a saúde mental. É lamentável que o potencial dos jogos não tenha sido mais explorado. Não é por falta de interesse, mas sim por falta de financiamento suficiente. Não há uma forma rápida e fácil de desenvolver bons jogos vocacionados para melhorar a saúde mental. Precisamos de mais financiamento, de mais projetos co-concebidos e de mais profissionais do setor da saúde mental e da indústria de produção de jogos a trabalharem para alcançar este objetivo. E precisamos de investigação, de muita investigação. 

Mais de 55 milhões de pessoas em todo o mundo, muitas das quais adolescentes, sofrem de perturbações alimentares que afetam a sua saúde mental e física. O estigma impede muitas delas de procurar ajuda. O projeto «Contar histórias para sensibilizar», gerido pela organização italiana Animenta, visa eliminar os estereótipos, promover a deteção precoce e prestar apoio. Desde 2021, chegou a mais de 10 000 estudantes em Itália. Falámos com Aurora Caporossi, presidente e fundadora da Animenta.

Mais de 55 milhões de pessoas em todo o mundo, muitas das quais adolescentes, sofrem de perturbações alimentares que afetam a sua saúde mental e física. O estigma impede muitas delas de procurar ajuda. O projeto «Contar histórias para sensibilizar», gerido pela organização italiana Animenta, visa eliminar os estereótipos, promover a deteção precoce e prestar apoio. Desde 2021, chegou a mais de 10 000 estudantes em Itália. Falámos com Aurora Caporossi, presidente e fundadora da Animenta.

O que a levou a lançar o seu projeto?

A Animenta nasceu da necessidade de dar voz não só a todas as pessoas que sofrem de perturbações alimentares mas também a todos os que lhes são próximos. A associação visa assegurar um acesso adequado ao tratamento a todos os doentes, uma vez que com uma terapêutica correta os doentes podem curar-se a si próprios.

Como foi recebido o vosso projeto? Teve alguma reação das pessoas que ajudou?  Tem um exemplo que nos possa dar?

«Foi na Animenta que encontrei apoio quando percebi que, apesar de não ter um peso inferior ao normal, sofria de uma perturbação alimentar.» Este é o exemplo de uma mensagem que nos chegou através da nossa comunidade e que nos permite compreender a importância e o impacto do nosso trabalho. A Animenta foi recebida com curiosidade, mas também com a esperança de que possa originar mudanças.

De que modo tencionam aplicar este financiamento específico para prestar mais ajuda à comunidade? Já estão a planear novos projetos?

Gostaríamos de investir cada vez mais nos projetos que realizamos nas escolas para alargar o nosso impacto. Além disso, o financiamento será utilizado para criar grupos de autoajuda para as pessoas que sofrem de perturbações alimentares. Os projetos da Animenta incluem os Animenta Camps, atividades realizadas na natureza, com a duração de seis dias, em que as pessoas redescobrem a sua relação consigo próprias, com os seus corpos e com os alimentos.

Que conselho dariam a outras organizações para obterem resultados em atividades e programas deste tipo?

Comecem por contar histórias que permitam conhecer as experiências da comunidade a que se dirigem. Peçam ao público para comentar a história e distribuam questionários para compreender as suas necessidades. Mas, acima de tudo, contem a vossa história pessoal, a história da vossa luta e da mudança que pretendem alcançar. Ao mesmo tempo, é fundamental estabelecer redes de contactos, para criar um sistema de apoio eficiente e eficaz.

Na sua opinião, as perturbações alimentares são hoje devidamente reconhecidas como um problema grave de saúde mental? As pessoas afetadas recebem um apoio adequado? O que deve ser feito para o melhorar?

Hoje em dia, fala-se mais sobre as perturbações alimentares, pelo que podemos dizer que há mais informação. No entanto, estas doenças continuam a estar rodeadas de um grande estigma social e são objeto de uma representação muito estereotipada. Ainda hoje, existe quem considere que as perturbações alimentares são fruto de falta de força de vontade ou de um capricho. Na realidade, trata-se de doenças psiquiátricas complexas que exigem uma terapêutica adequada, nem sempre disponível, pois não existem centros de tratamento suficientes, o que impede o acesso de um grande número de doentes ao percurso de tratamento.