Uma iniciativa num bairro português que começou por ser uma serenata para encher os corações nas horas vazias do confinamento e que, depois, cresceu até ao tamanho das necessidades da sua comunidade, enchendo os frigoríficos de 600 famílias, cuja angariação já atingiu as 7 toneladas de alimentos, revelou Íñigo Hurtado, o fundador deste movimento.

O que o levou a lançar o seu projeto ou iniciativa?

Primeiro não foi um projeto e sim um MOVIMENTO que aconteceu naturalmente no nosso bairro… Sinceramente, o início foi uma atitude instintiva. Quase que para que a minha maluqueira não me derrotasse. Eu nasci para a festa, como diz a tal música…

Vendo o que estava a acontecer em Itália e Espanha, pensei que aqui também seria possível «dar música» aos vizinhos. Experimentei, sozinho, sem vergonha nenhuma, e pus a voar o meu número de telefone até às outras janelas onde via um vizinho. Pouco a pouco criámos um grupo de WhatsApp de cerca de 200 vizinhos. Criámos uma agenda musical diária, em dois horários (às 14h00 e às 20h00), a inventar programas diferentes para dar vida a uma comunidade fechada por causa deste maldito bicho…

Como foi recebido o seu projeto? Teve algum retorno de informação das pessoas que ajudou?

Insistimos na palavra MOVIMENTO. Foi tão bem recebido que a música continua presente, cada vez que estamos confinados. Depois fomos contactados pela Junta de Freguesia a pedir SOS alimentar para as famílias de Oeiras. Organizámos um sistema fácil e rápido de recolha ao domingo, em quase 50 prédios vizinhos, e continuamos a angariar uma média de 300/400 quilos de alimentos semanais. Entretanto três outras associações também nos pediram ajuda. De março de 2020 até hoje, já devemos estar perto das 7 toneladas para umas 600 famílias.

  • Retorno? Todos e todos os dias…
  • Exemplo? Crianças e idosos e pessoas de qualquer idade esperam esse momento musical para dançar perto dos vizinhos. Agradecimentos das quatro associações permanentemente…
  • Mais? Lágrimas de frigoríficos vazios, crianças de joelhos quando chega a comida, silêncios que abrem a boca só para comer, arrepios constantes. E no bairro a música continua e as recolhas dominicais mais ainda!

De que modo tenciona aplicar este financiamento específico para prestar mais ajuda à comunidade? Já está a planear novos projetos?

Para já, vamos continuar com o mesmo intuito de recolha semanal. A música ainda não sabemos… Dependerá do «maldito bicho»… Da minha loucura… E da paciência d@s vizinh@s... AHAHAHAHAHA!!!

Sobre o financiamento: São as associações que ajudamos que nos vão propor as suas necessidades. Vamos tentar aplicar em bens materiais, que de outra forma lhes iria custar muito a adquirir.

E outra aplicação: uma para todos @s vizinh@s quando o «maldito bicho» nos deixar abraçar-nos e beijar-nos!

Que conselho daria a outras organizações para obterem resultados em atividades e programas deste tipo?

Acho que é muito difícil transmitir em conselho como replicar o nosso MOVIMENTO, uma vez que o mesmo surgiu neste momento dramático e «especial». Mas cá vai:

  • Ajude a ajudar
  • Muito mais música nas nossas vidas!!!
  • E se tiverem a sorte de encontrar uma ALMA com um VIOLINO como terceiro braço, voem sempre ao pé dela…