Editorial

Estamos a atravessar momentos difíceis desde o início do confinamento. Vivemos tempos de incerteza, continuamos confinados e afastados uns dos outros. Pedimos aos nossos entes queridos e aos nossos colegas que se cuidem e esperamos que estejam em boa saúde. As nossas vidas são frágeis. A pandemia pode atacar a qualquer momento. Trata-se de um desafio global que requer uma resposta global.

A UE e o Dia da Europa: 70 anos depois

Em conjunto com as instituições da UE, enviámos uma mensagem à sociedade civil para enfatizar que estamos juntos e que «juntos somos mais fortes», «juntos somos a Europa». O Dia da Europa representou para cada um de nós a oportunidade para refletir sobre os ensinamentos a retirar do esplêndido discurso proferido por Robert Schuman no Salão do Relógio do Quai d'Orsay, em Paris, em 9 de maio de 1950. Esse discurso foi o verdadeiro primeiro passo rumo à construção europeia e lançou as bases para a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço por seis Estados-Membros um ano depois. Na origem dessa decisão estiveram o empenho em manter a paz, a convicção de estar juntos, a paixão por uma Europa unida e a visão de um projeto comum.

Setenta anos após esse ato ousado e visionário, continuamos a repetir que somente juntos podemos ter êxito e ultrapassar situações difíceis. Na sua declaração, Robert Schuman afirmou que é necessário começar por «uma solidariedade de facto». Gostaria de frisar que a unidade da Europa é um dos mais belos projetos da humanidade.

Robert Schuman fez ainda outras afirmações que permanecem justas e muitos atuais: «A lei da solidariedade dos povos impõe-se à consciência contemporânea. Sentimo-nos solidários na preservação da paz, na defesa contra a agressão, na luta contra a miséria, no respeito dos tratados, na salvaguarda da justiça e da dignidade humana.»

Hoje, a crise da COVID-19 representa um choque profundo, quase semelhante à crise dos anos 30 e ao conflito que se seguiu. Esta crise afeta as nossas vidas, o nosso comportamento e a nossa vida social, penetra as esferas económica, social, política e cultural e invade a vida quotidiana de cada um. Afeta todos, trabalhadores, migrantes, pessoas indocumentadas, famílias de baixos rendimentos, pessoas sem-abrigo, idosos, pessoas com deficiência ou doenças crónicas, jovens, artistas, desportistas.

A resposta da sociedade civil à COVID-19

O CESE mostrou a sua unidade, respondendo com empenho através de uma ação conjunta. Nas nossas múltiplas declarações, enfatizámos a importância de agirmos em conjunto ao nível europeu. O confinamento não nos impediu de trabalhar ativamente para fazer ouvir a voz da sociedade civil organizada. Nenhum governo pode pensar que consegue resolver por si só uma crise como esta. Por este motivo, apelámos a uma ação eficaz ao nível da UE. Fizemos ouvir a nossa aspiração: «Hoje, somos uma União, ou não somos nada».

O impacto desta crise está diretamente relacionado com a sociedade civil. O número de pessoas desempregadas está a aumentar, pelo que é necessário reforçar os mecanismos de proteção social e salvaguardar as garantias fundamentais. A solidariedade a nível europeu e continental deve traduzir-se em ações concretas, que despertem e mobilizem as pessoas e vão além das palavras e dos discursos. Esta solidariedade também tem de existir a nível regional e local. Há que reforçar os laços de solidariedade, é essencial desenvolver uma visão coerente da sociedade após a pandemia.

O CESE, enquanto representante da sociedade civil, está a trabalhar para dar resposta à crise. Desde o confinamento, adotámos sete posições comuns. Na primeira reunião plenária à distância, que teve lugar em maio, adotámos cinco pareceres de grande importância, sobre temas como as orientações para o emprego ou o desafio demográfico.

Há sempre uma luz ao fundo do túnel, mesmo do mais longo e mais difícil de percorrer, e para poder planear já o futuro que nos espera quando terminar a crise da COVID-19, decidimos criar um subcomité específico, composto por 15 membros e presidido por Luca Jahier, presidente do CESE. Os grupos e as secções participarão nos seus trabalhos sobre a recuperação e a reconstrução após a crise da COVID-19. Será também uma boa oportunidade para falar a uma só voz em nome da sociedade civil organizada. Não só examinaremos a situação que emergiu da crise sanitária, avaliaremos também todas as suas consequências para a sociedade civil, a economia, a Europa social, os direitos, bem como para os desafios em termos de bom funcionamento das nossas democracias.

Devido à ausência de reuniões em Bruxelas, os 326 membros do CESE estão presentes no terreno. O trabalho não parou. Temos de apoiar as nossas próprias organizações e trabalhar com elas nestes tempos difíceis, estar ao lado das nossos parceiros e permanecer à disposição do CESE. Para confirmar esta constatação, basta visitar as nossas redes sociais, o nosso sítio Web ou consultar os boletins informativos dos grupos.

E no que diz respeito ao papel da comunicação, neste período mobilizamo-nos para transmitir as informações com honestidade, fiabilidade, equidade e perseverança e combater todas as formas de desinformação. E sempre e acima de tudo, para divulgar não apenas o nosso trabalho legislativo, mas também os compromissos dos nossos membros enquanto representantes da sociedade civil. Creio que é aqui que reside o valor acrescentado do CESE, em ser esta voz.

Desde abril, convidamos os nossos membros a partilharem os seus testemunhos sobre a forma como vivem estes tempos de incerteza. Na edição de maio do CESE Info, a partilha dessas experiências continua e uma nova rubrica aparece, intitulada «Dessine-moi…». Agradeço a todos os que já partilharam os seus testemunhos, as suas perspetivas de vida, as suas reflexões. Agradeço a todos os que pretendam responder ao nosso convite de deixar, no nosso CESE Info, um registo das suas experiências. Estou comovida com a intensidade dos testemunhos, a sua sinceridade e a sua força. O verdadeiro diálogo nunca termina

Recuperar o fôlego

Que ensinamentos retiraremos deste período tão inesperado e difícil de aceitar? Temos de reaprender a viver, relembrar os gestos simples, ternos e afetuosos. O nosso objetivo é evitar outro tipo de inimigo – o egoísmo, a desconfiança, o narcisismo, o chauvinismo... Temos de estar atentos e lúcidos para combater a indiferença, criar laços de solidariedade, oferecer soluções, não desistir, mas continuar mobilizados e empenhados.

O virtual e o real

Gostaria de partilhar convosco uma reflexão sobre a utilização das ferramentas virtuais. Estamos a utilizar as novas tecnologias. Fechados no mundo virtual, comunicamos muito mais pelo WhatsApp, o Skype, o Skype for Business, o Zoom, o Webex, o Interactio, o correio eletrónico, etc.. Constato, porém, que este mundo tem os seus limites. As relações interpessoais são cruciais, são a base das nossas vidas: ver, sentir, tocar outras pessoas.

Compreendemos agora, porventura, o preço a pagar pelo enfraquecimento dos sistemas públicos de saúde. Constatamos os danos causados ​​pela austeridade. Há profissões que assumem outra dimensão e emergem das sombras: agricultores, padeiros, carteiros, empregados de livraria, lixeiros, farmacêuticos, merceeiros, todas essas pequenas profissões essenciais à nossa vida e tantas outras que nos ajudam a atravessar este momento difícil.

Ouvi profissionais de saúde dizerem que não são heróis, que estão a cumprir o seu dever. Concordo com estas afirmações. Não são heróis, mas sim trabalhadores, e gostaria de lhes dizer que, todas as noites, os aplausos representam o nosso apoio às suas reivindicações destes últimos anos. Não exigiram melhores salários, disseram-nos que, acima de tudo, os nossos sistemas de saúde precisam de ser reforçados, que não devemos suprimir serviços ou postos de trabalho.

Para concluir, eis uma bela frase que me vem à mente, citada de A Peste de Albert Camus. Repito as palavras do doutor Rieux: «(...) e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar».

Isabel Caño Aguilar, vice-presidente do CESE responsável pela Comunicação